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Caminhos pelo Brasil: rotas de fé, aventura e superação

Já ouviu falar que, às vezes, “o caminho é mais importante que o destino”? Pois viajar pode ser muito mais que visitar um lugar

Caminhos pelo Brasil: rotas de fé, aventura e superação

Viajar é a primeira ideia que vem à cabeça quando pensamos em férias e sair da rotina. Não há nada como andar por aí, conhecer pessoas, relaxar e – por que não? – se aventurar, respirar ar puro, se autoconhecer.

Ocorre que nem só de lugares carimbados pelas agências de viagem é feito um roteiro incrível: o Brasil oferece caminhos e rotas inusitados para quem quer sair do comum, viver momentos transformadores e cheio de experiências.

Estão aí vários caminhos e rotas espalhados pelo País, que costumam receber gente que quer fugir do tradicional deslocamento com automóvel, ônibus ou avião.

É que tais trajetos são feitos, em sua maioria, caminhando, pedalando, cavalgando, navegando e com veículos especiais (4x4). Sim, na maioria das situações, o preparo físico é importante, mas começa aí o desafio de se propor uma experiência diferente.

Em comum, todos mesclam belezas naturais e muitas histórias. Mas os diferenciais incluem uma boa dose de reflexão, superação, grande contato com a natureza, aventura e, em alguns casos, muita fé.  

Saiba um pouco mais sobre algumas das alternativas e permita-se mudar de rota!

Caminho da Fé

Conhecida como o Caminho de Santiago de Compostela brasileiro, é uma rota de peregrinação: o percurso de 497 km liga as cidades paulistas de Sertãozinho a Aparecida do Norte, atravessando boa parte de Minas Gerais. O trajeto pode ser percorrido a pé (dura em torno de 20 dias) ou com bicicleta (cerca de 10 dias). É um convite para a introspecção, o exercício da fé e o contato com a exuberância da natureza. A ideia é se hospedar em lugares simples e levar apenas uma mochila com poucas roupas.

Caminho do Sol

Bastante procurado por ciclistas, o roteiro de 240 km, que começa em Santana do Parnaíba e termina em Águas de São Pedro, existe há mais de 10 anos e passa por 11 cidades do interior de São Paulo. Andando, são cerca de 11 dias para concluir o trecho, enquanto com bicicleta leva-se em torno de 5 dias. Momentos de rara beleza, contato com a cultura interiorana e muito ar puro estão garantidos durante esse trajeto, percorrido por estradas de asfalto e vicinais, além de muitas trilhas na mata.

Caminho da Luz

A rota tem início na cidade de Tombos, em Minas Gerais, e termina no Pico da Bandeira, na cidade Alto do Caparaó, divisa com o Espírito Santo. Para desfrutar intensamente a beleza dessa rota (foto acima), que inclui cachoeiras, fazendas centenárias, santuários e montanhas, recomenda-se percorrer os seus 200 Km a pé (7 dias), podendo-se ainda optar por bicicleta ou cavalo. No passado, este caminho foi percorrido por índios, tropeiros, religiosos, pesquisadores e aventureiros em busca de ouro.

Os Passos de Anchieta

É considerado o primeiro caminho cristão das Américas, pois resgata o caminho percorrido pelo Padre Anchieta no Brasil nos seus últimos anos de vida. A ideia é fazer com o que o caminhante reviva os passos do religioso, se inspire nas mesmas paisagens e se sinta despertado por momentos de fé e reflexão. Saindo de Vitória, capital do Espírito Santo, e indo de ônibus fretado até Vila Velha, o roteiro pode ser feito a pé (em torno de 4 dias), bicicleta ou a cavalo (2 dias) e embarcações a vela ou a remo (de 2 a 4 dias) até o município de Anchieta. O caminho segue por praias urbanas e desertas, rodovias e estradas de terra. A viagem termina no Santuário de Anchieta, monumento construído em 1597.

Caminho das Missões

Preferidos pela turma da bike, os 338 km podem ser pedalados (durante cerca de 5 dias) ou percorridos a pé (divido em roteiros de 3 a 14 dias) pelo interior do Rio Grande do Sul. O trajeto começa na cidade de São Borja e termina em Santo Ângelo, margeia o rio Uruguai, segue por antigas trilhas guaranis, caminhos missioneiros e velhas estradas dos tropeiros, passando por três patrimônios nacionais, os sítios arqueológicos de São Nicolau, São Lourenço e São João Batista, além de São Miguel Arcanjo, patrimônio da humanidade.

Estrada Real

Com mais de 1.630 km de extensão, esta é a maior rota do Brasil, podendo ser percorrida a pé, com bicicleta, a cavalo e com veículos 4x4, passando por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O caminho (foto principal, acima) resgata memórias, histórias religiosas e culturais, além de tradições, destacando a identidade e as belezas da região. Por sua longa extensão, aconselha-se percorrer um dos quatro caminhos por vez - Diamantes, Novo, Velho e Sabarabuçu.

É o que está fazendo a dentista Márcia Capello (foto abaixo) e dois amigos, apaixonados por belas paisagens e aventuras ligadas à natureza. Eles já pedalaram os caminhos dos Diamantes (de Diamantina a Ouro Preto) e o Velho (de Ouro Preto a Paraty), totalizando 1.100 km em duas etapas.

“O primeiro trecho, de 400 km, fizemos em quatro dias. Pegamos muita seca e calor, pois era fevereiro. Os trechos têm mais a característica do local, ou seja, estão preservados. Encontramos pouca estrutura de acomodação e de apoio, mas ficamos rodeados por pessoas receptivas e solícitas”, comenta.

Já o segundo trecho, de 700 km, foi percorrido em cinco dias durante dezembro. “Pegamos muita chuva e barro. O trecho é bem mais técnico e difícil, porém, com mais estrutura de apoio e acomodação”, diz Márcia.

A aventureira lamenta ter notado que as características do local estão sendo perdidas, aos poucos. “O que me entristeceu foi ver que, com a evolução e a modernidade, os locais estão perdendo as características próprias. E que, mesmo por fazer parte de nossa história, esse caminho é muito pouco divulgado”, opina.

Então fica a dica: os lugares e trajetos são lindos e maravilhosos e vale a pena percorrê-los e viver uma experiência única.

(Fotos: Getty Images, Abraluz [Caminho da Luz], Caminho das Missões, Sonia Bischain [Caminho da Fé]/ Divulgação, Márcia Capello/ Arquivo pessoal)