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Adoção: um ato nobre que vai muito além do amor

A vontade de ser pai ou mãe e escolher uma criança para amar é louvável, mas não deve ser idealizada. As dificuldades virão e é preciso estar preparado para elas

Adoção: um ato nobre que vai muito além do amor

Não há dúvidas de que a adoção é um ato de amor quase incondicional. A vontade de ser pai ou mãe é tão grande que supera barreiras emocionais e até biológicas. Uma motivação intensa que leva a pessoa a escolher uma criança para chamar de filho e alimentar uma necessidade de cuidar e proteger tão forte quanto a que seria despendida a alguém do mesmo sangue.

Porém, é importante ponderar que o processo de adoção é bastante delicado. Uma decisão que precisa ser tomada com muita seriedade e cautela por envolver as expectativas não só de quem está adotando, mas também de quem será adotado.

“Para os pais, penso que o mais difícil seja a espera por esse filho. Diferente da gravidez biológica, não se tem um tempo determinado para a chegada da criança e isso pode trazer alto grau de ansiedade e angústia. Para a criança, a dificuldade maior é a transição do abandono para a filiação adotiva. É um tempo que deve ser tratado com cuidado e muito respeito”, diz Maria da Penha Oliveira Silva, psicóloga da ONG Aconchego, grupo de apoio à convivência familiar e comunitária

Uma conta que não fecha

O Cadastro Nacional de Adoção, organizado pelo Conselho Nacional de Justiça, contava no início de fevereiro (2014) com 5.403 crianças e adolescentes à procura de uma nova família e 30.109 interessados no outro lado da lista.

O cenário pode parecer positivo em um primeiro momento, mas essa, infelizmente, é uma conta que não bate por conta da preferência de quem quer adotar: o maior interesse é por crianças com até 6 anos de idade, sendo que 30% dos interessados só aceita a raça branca. Já dá para imaginar qual o perfil preponderante dessas mais de 5 mil crianças e adolescentes que ainda não encontraram um lar, certo?

Quase 90% têm entre 7 e 17 anos e perto de 70% são das raças negra, amarela, parda ou indígena. Outro dado que chama a atenção é que pouco mais de 14% dessas crianças e adolescentes possuem algum tipo de deficiência (física ou mental) ou doença sem cura. Vale a reflexão: você adotaria uma criança com deficiência?

Sabrina era uma delas, mas teve mais sorte do que suas pares: com apenas 2 dias de vida chegou ao colo de Paula Gouveia, sua mãe adotiva. Um mês se passou e Paula notou que havia algo de diferente com a menina. Já nos exames de ultrassom, um cisto no cérebro havia sido identificado, mas isso não foi um obstáculo para Paula.

Desde o momento em que soube da existência de Sabrina, a pequena já havia se tornado sua filha. E nunca mais deixaria de ser mesmo após o diagnóstico de esquizencefalia (ausência de massa cefálica), que causou paralisia de todos os membros e uma síndrome que faz a garota, hoje com 10 anos, ter convulsões repetidas e generalizadas.

Por conta desse quadro, Sabrina demanda dedicação integral da mãe, além do apoio de profissionais de saúde, como enfermeiros e fisioterapeutas. E o que dá forças para Paula seguir em frente? “Sou mãe de um anjo colorido que enche minha vida a cada dia de ensinamentos e amor incondicional”, resume.

O que vem antes do amor?

A presença desse amor incondicional é uma constante em todas as histórias de adoção bem-sucedidas e, portanto, condição básica para quem decide seguir por esse caminho. Mas muitas pessoas se deixam levar pelo lado emocional e acabam ignorando outros fatores, tão ou mais importantes do que esse.

Um deles é toda a questão burocrática que precede o processo. O primeiro passo para quem quer adotar uma criança é procurar o representante do Ministério Público da Vara da Infância e da Juventude. “Deve fornecer documentos de identidade, dados familiares, certidão de casamento ou união estável - para casais que querem adotar em conjunto -, atestado de sanidade física e mental e antecedentes criminais”, explica Marcia do Nascimento, professora de Direito da ESAMC de Santos.

Essa sinalização inicial é chamada habilitação. Uma vez concluída, chega a hora da inscrição no Cadastro Nacional, apontando o perfil da criança ou do adolescente que o pretendente gostaria de receber em casa. Começa, então, o período de espera nas famosas filas de adoção, que varia de acordo com a cidade e o perfil procurado.

Outro fator a se considerar é que, mesmo após a tão aguardada chegada do novo membro da família, os sentimentos de amor e cumplicidade podem não aparecer logo de cara. “Existe um período experimental de convivência que deve ser observado para adaptação da criança ou adolescente ao seio da família, assim como a adaptação dos pais adotivos à criança”, ressalta Marcia.

Para o que se preparar?

Na vida, os caminhos mais nobres não costumam ser os mais fáceis e, na adoção, isso não é diferente. As alegrias e recompensas relatadas por quem aceitou esse desafio são imensuráveis, mas o preço pago por elas também é alto.

Para ajudar nessa reflexão, confira alguns dilemas que fatalmente serão enfrentados por qualquer família que adota uma criança ou adolescente. Superar tudo isso pode não ser das tarefas mais fáceis, mas com jogo de cintura e paciência a adaptação a essa nova realidade é perfeitamente possível:  

- Quando contar para a criança que ela é adotada? Essa é uma das questões que mais desperta dúvida. Muitos pais adotivos preferem postergar a conversa por medo de fazer o filho sofrer ainda mais. Mas os especialistas aconselham: a transparência é sempre o melhor caminho.

“A criança deve saber sobre o seu nascimento adotivo desde o primeiro momento e a adoção deve ser um tema recorrente no contexto familiar. Assim como na filiação biológica, a adotiva também tem histórias que podem e devem ser narradas”, defende a psicóloga Maria da Penha.

Com o tempo, a criança perguntará como ocorreu seu nascimento e os pais não devem temer esse momento. Se a criança estiver se sentindo amada e segura, certamente aceitará sua história com muita naturalidade.

Foi exatamente o que aconteceu com Daniel Oliveira, adotado com 5 dias de vida. Quando questionado sobre quando descobriu que era adotado, a resposta foi direta: ele não se lembra. “Eu simplesmente sempre soube. Cresci sabendo isso e imagino que meus pais devem ter deixado isso claro desde sempre”, comenta.

Hoje com 24 anos, cursa o último ano de Arquitetura e não tem pudores em contar sua história. “Eu me sinto orgulhoso e sortudo demais porque tenho noção de como seria a minha vida se eu não fosse adotado. Tenho orgulho pela atitude dos meus pais, que são meus heróis, literalmente”, define.

- E se meu filho ou filha quiser saber por que foi abandonado (a) ou até mesmo conhecer os pais biológicos? Mais uma vez, a sinceridade é a melhor saída. A psicóloga Beatriz Azevedo Moraes destaca que essa situação é extremamente normal. “Todos nós sentimos necessidade de conhecer nossa história. Portanto, se a criança quiser e se for possível, os pais devem permitir e viabilizar este encontro”, aconselha.

Larissa Janelli da Costa tem 16 anos, mora no Rio de Janeiro e foi adotada com apenas 4 meses de vida. Entretanto, manteve contatos pontuais com sua mãe biológica, algo que nunca foi negado por seus pais adotivos. “Dizem que a criança pode ter a cabeça confusa por questões familiares alternativas, mas para mim sempre fluiu de maneira natural”, afirma.

A última vez em que Larissa viu a mãe biológica foi na audiência judicial em que ela deu a palavra final para formalizar a adoção da filha. “Admiro muito a postura dela, sempre. Ela é uma guerreira! E um bom guerreiro seleciona as suas batalhas e estratégias. Ela fez o que seria melhor para mim”, avalia.

- Se tiver amor suficiente na nova família, o filho ou filha adotado (a) nunca sentirá os efeitos do trauma de ter sido abandonada, certo? Errado! O amor e o carinho dos pais adotivos são essenciais para que a criança ou o adolescente se sinta acolhido e pertencente à família, mas, como acontece com qualquer filho, é impossível blindar o sofrimento.

Tanto Larissa quanto Daniel, apesar de muito bem resolvidos com a questão de terem sido adotados, relatam que sentiram (ou ainda sentem) em algum momento da vida algum sentimento negativo decorrente de sua história. E quem nunca sofreu com problemas originados na infância?

- Como devo lidar com os dias em que eu não souber o que fazer? A única certeza que se pode ter em um processo de adoção é que as dificuldades virão e os pais devem estar preparados para enfrentá-las. Mas, mesmo quando a certeza de estar fazendo a coisa certa escapar em alguns momentos, existe uma luz no fim do túnel.

Helena* tem 47 anos e adotou um casal de irmãos biológicos: Bruno* e Paula*, que chegaram à nova família com dias de vida e 3 anos de idade, respectivamente. Ela conta que o que a ajudou muito nos momentos difíceis foi participar de um grupo de apoio à adoção, onde pessoas que já adotaram e interessados em adotar trocam ideias, experiências e desabafos.

E a experiência de Helena acabou dando tão certo, que ela acaba de entrar na fila de espera para adotar mais duas crianças. “Sou apaixonada pela maternidade e penso que tem tantas crianças que precisam de um lar. É maravilhoso ter uma família grande. Adotar causa dependência”, compartilha.

* Nomes trocados para preservar a identidade dos entrevistados.