Bebês

Existe mãe ideal?

A resposta mais certeira para essa pergunta está dentro de cada mulher e não na opinião de quem vem e olha tudo de fora

Existe mãe ideal?

Você já parou para pensar sobre o significado da palavra “ideal”? Isso, aquele mesmo, que consta no dicionário. Não? Então, a gente simplifica para você.

Segundo o Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, como substantivo, “ideal” significa “modelo de perfeição ou excelência (que só existe na imaginação); perfeição suprema”. Para o filósofo Kant, “ideal” é algo que a razão pura exige, mas que não é dado no campo da experiência.

Atendo-se aos significados dessa palavrinha tão incômoda, você deve estar pensando agora que a resposta para a pergunta de nosso título é “não”.

Na verdade, isso vai depender de cada mulher e das expectativas que ela própria depositar sobre a maternidade. É aquele velho lance de achar que a grama do vizinho é sempre a mais verde.

“Grande parte das frustrações das pessoas são resultantes das expectativas que elas depositam sobre determinado assunto”, afirma o psicólogo Cristiano Liveraro.

Como ele exemplifica, há quem não se case porque alega não ter encontrado o par ideal. “De repente, essa pessoa está deixando passar um parceiro fenomenal apenas porque ele não se enquadra na lista de predicados idealizada. E, nesse aspecto, a maternidade talvez seja a esfera mais idealizada pelas mulheres”, avalia.

Qual seu objetivo?

Idealizar não é ruim. Muitas vezes conseguimos alcançar aquilo que imaginamos. O perigo está no nível de idealização e, mais que isso, no objetivo disso.

Se existe uma mãe ideal, ela é aquela que conhece seus limites, que faz o que pode e o que está ao seu alcance, sempre tendo como meta o bem-estar dos filhos – e não o que a vizinha vai pensar.

Atualmente, a maternidade vive um momento confuso. Com a facilidade e disponibilidade de informações, qualquer um pode ter acesso às pesquisas, estudos e “modelos” de criação de filhos.

O que poderia ser bom, às vezes, tem sido ruim. Isso porque muitas mulheres se sentem julgadas em sua maternagem. E isso pode acontecer dentro de casa.

“Desde o primeiro momento em que engravidei eu disse que queria ter parto normal. Na verdade, queria um parto humanizado, mas no meio do caminho tantas coisas aconteceram que esse foco foi desviado. Mas me informei muito e, mesmo minha filha tendo nascido prematura, ela veio de parto normal”, conta Ana Luísa de Mendonça, mãe de Beatriz, de 3 anos.

A contrariedade vinha, inclusive, da mãe e avó. “Após o nascimento, continuei a me informar sobre o assunto e esse era meu papo preferido, mas minha mãe se incomodava com as evidências científicas atuais. Ela caiu em três cesáreas pelo velho truque do ‘não tem dilatação’ e, para ela, era muito difícil entender que, sim, ela poderia ter tido parto normal. Vivíamos discutindo”, diz.

Segundo Luísa, as discussões não cessavam no assunto “parto”. A forma de amamentar, hoje, orientada diferentemente da época de seu aleitamento também renderam inúmeras discussões.

“Ela insistia que eu tinha de dar um peito por 15 minutos e depois o outro e mesmo eu dando as justificativas ela dizia que eu não queria aprender com ela, que eu estava ignorando os ensinamentos dos antigos”, relembra.

Outra celeuma veio por conta da alimentação. Luísa é artesã e trabalha em casa e decidiu que faria a comida da filha, excluiria o sal da dieta até a menina completar 1 ano, não daria industrializados por esse mesmo período e o açúcar não seria conhecido de Beatriz até pelo menos os 2 anos.

"Minha mãe achava que tudo isso era uma afronta a ela. Dizia que eu fui criada com papinha e que não havia mal algum nisso. Também se ressentia dizendo que eu jamais deixaria ela comer sua comida, pois tinha sal e industrializados”, relata.

Um dia, no auge de uma discussão, a avó disse que, com tudo o que Luísa fazia, estava dizendo que ela foi uma péssima mãe. “Cansada e nervosa, respondi que se era isso que ela queria ouvir, sim, ela foi uma mãe horrível”, desabafa a artesã.

Luísa conta que só falou aquilo porque não aguentava mais as acusações, as indiretas e as mesmas cobranças a cada encontro. “Eu acredito que minha mãe fez o que ela acreditava ser o melhor para nós, baseada nas informações que ela teve naquela época. Mas eu quis fazer diferente e isso não quer dizer que eu sou uma mãe melhor que ela”, enfatiza.

Para o psicólogo Cristiano Liveraro, o julgamento, muitas vezes, começa internamente. “Se a mãe idealizou fazer de um jeito, mas não consegue porque tem seus motivos, ao ver o outro fazer diferente, ela se sente julgada, mas nem sempre o julgamento existe da outra parte”, comenta.

Ou seja, as cobranças são muito mais internas do que externas. “E se libertar desse sofrimento passa, necessariamente, pela elaboração das expectativas em relação à maternidade”, fala.

Dê o seu melhor

O pulo do gato para não cair na cilada da “mãe ideal” é estabelecer uma conexão com seu filho. Esqueça os manuais, elimine as regras, não espie por cima do muro do vizinho. Conecte-se. Olhe para a sua vida, a sua realidade, o seu dia a dia e encare seu filho. Você vai saber do que ele precisa. E ele vai lhe dizer o que precisa também.

“Preocupadas em seguir uma cartilha para ganhar a estrela de melhor mãe, muitas mulheres deixam de fazer o principal, que é olhar para a criança e para ela própria e descobrir se realmente precisam e querem aquilo”, observa Liveraro.

De acordo com o psicólogo, o melhor para o binômio mãe-filho é sempre aquilo que é feito de acordo com as suas necessidades - e não as de fora.

Na casa da administradora Letícia Vassoler, a cama compartilhada foi a escolha da família desde sempre. A pequena Marcela, de 1 ano e 9 meses, ainda está na cama dos pais e Letícia já perdeu as contas de quantas vezes ouviu a cobrança para tirar a menina dali.

“Todo mundo que me encontra, antes de perguntar se estou bem, já pergunta se Marcela ainda dorme conosco. Quando digo que sim, vem a avalanche de conselhos. Desde gente preocupada com minha vida sexual até com a dificuldade que terei em tirar minha filha do meio de nós, no futuro”, desabafa.

Se você quer exercer a sua maternidade de uma forma mais tranquila, então, o primeiro passo é não querer ser a mãe ideal. Queira ser mãe, simples assim. Ou melhor: seja a mãe do seu filho, apenas isso, sem rótulos e expectativas. Só você pode ser a mãe que seu filho precisa. Pense nisso!

(Foto: Getty Images)