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Quando uma mãe não consegue amamentar

Apesar de ser o melhor para a mãe e o bebê, infelizmente nem sempre o aleitamento materno exclusivo é possível

Quando uma mãe não consegue amamentar

Minutos após o nascimento, João foi levado para os seios de sua mãe. A publicitária Carolina Diniz nem acreditava que, mesmo após o exaustivo trabalho de parto, seu pequeno bebê já estava ali para a primeira mamada.

“A enfermeira colocou meu filho nos meus braços e ele logo começou a fazer movimentos de sucção. Não sei se realmente saiu o colostro, mas foi um momento mágico!”, lembra.

No entanto, já no dia seguinte, a mãe de primeira viagem percebeu que o processo não era tão simples assim. “Na maioria das mamadas, as enfermeiras me explicavam como devia ser a amamentação e corrigiam a pega do bebê. Mas as fissuras logo apareceram e amamentar se tornou um momento extremamente doloroso”, diz.

Em cerca de duas semanas, o ardor diminuiu e mãe e filho seguiam o aleitamento materno exclusivo em livre demanda. Começava uma íntima e deliciosa – apesar de intensa – jornada. A publicitária conta que João nunca foi um bebê gordinho e, a cada consulta do pediatra, notava que ele ganhava o mínimo de peso esperado.

“O médico pediu para amamentar na frente dele, mas como a pegada estava correta e ele estava ganhando peso no limite inferior, a recomendação era seguir com a amamentação exclusiva. Comecei a tomar um remédio, com prescrição médica, e também fazia ordenha entre os períodos de amamentação para aumentar a produção de leite”, lembra.

Quando o pequeno estava com quase 4 meses, seu comportamento durante algumas mamadas mudou: ficava inquieto e chorava bastante mesmo após esvaziar as duas mamas.

“Liguei para o pediatra e perguntei se não era melhor complementar com fórmula. Ele me indicou continuar com o aleitamento materno e, quando necessário, poderia oferecer uma mamadeira após a mamada. Comecei a amamentação mista e dava fórmula uma vez ao dia – em alguns dias nem era preciso”, afirma.

Na consulta de 5 meses, a surpresa: a balança mostrou que João estava abaixo do peso, então o pediatra sugeriu dar mamadeira quatro vezes ao dia, após as mamadas.

“Na volta para casa, disse ao meu marido que não concordava e que continuaria a dar a fórmula só quando o bebê ainda estivesse com fome. Conversamos e decidimos que o importante era o bebê ser saudável e estar bem alimentado, independentemente do método, e segui as orientações do pediatra”, comenta.

Apesar de começar a ganhar peso, em pouco tempo João começou a recusar o peito. Com a introdução das frutas, o bebê colocou um ponto final no aleitamento materno. “Consegui amamentar, não exclusivamente, por seis meses”, compartiha a mãe.

Como no caso de Carolina e João, incluir a fórmula pode ser a melhor alternativa (em alguns casos até a única), porém, muitas vezes, outras mães que tiveram sucesso com o aleitamento materno não entendem e criticam a opção.

“Em uma reunião familiar, fui dar uma mamadeira para o João e uma prima do meu marido ficou incrédula, pois seu filho com quase 2 anos nunca tinha precisado tomar fórmula. Ela ficou um tempão me dando dicas, inclusive me aconselhou a mudar de pediatra. Mas tenho certeza de que dei o meu melhor para o João, que hoje está com 1 ano e 5 meses, no peso ideal, já come de tudo (que é saudável, claro!) e toma fórmula duas vezes ao dia”, conta.

Quando o aleitamento não é opção

O aleitamento é o melhor caminho tanto para a mãe como para o bebê. Na mulher, reduz o risco de câncer de mama e de ovário, contribui para o emagrecimento e fortalece a relação com o bebê. Já a criança recebe inúmeros anticorpos que a protegem contra diabetes e problemas respiratórios, entre outras doenças.

No entanto, são muitos os motivos que levam algumas mães a desistirem de amamentar. “As fórmulas são produzidas da maneira mais próxima possível ao leite materno e são a melhor opção para quem tem alguma contraindicação ou não consegue amamentar, apesar de todas as tentativas. Mas a primeira opção deve ser sempre o aleitamento materno”, indica Marina Chicareli, pediatra da Clínica Dr. Família.

Amamentar é uma prática complexa que precisa ser compreendida e incentivada para ser prolongada com êxito – a Organização Mundial da Saúde recomenda o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e a amamentação até, pelo menos, os 2 anos de idade.

“Existem algumas doenças que impedem o aleitamento materno. Mães portadoras do vírus HIV ou que estejam recebendo quimioterapia ou radioterapia para combater o câncer, por exemplo, não podem amamentar. Mas, felizmente, a maior parte das doenças maternas não impedem a amamentação”, diz o ginecologista e obstetra Gabriel Monteiro.

No entanto, um estudo publicado na revista britânica “The Lancet” no início de 2016 mostrou que apenas 39% dos bebês brasileiros recebem exclusivamente o leite materno até os 6 meses – 50% dessas crianças continuam sendo amamentadas até 1 ano e 25%, até 2 anos de idade.

“A falta de apoio desde a maternidade é o principal motivo que leva a troca do aleitamento materno pela fórmula. Existe uma falsa ideia de que amamentar é instintivo, mas é um processo que precisa ser aprendido tanto pela mãe como pelo bebê. Cada dupla é única e a assistência é a base para o sucesso”, explica a pediatra Marina Chicareli.

Os especialistas apontam quais são os principais motivos que levam ao desmame precoce – e como solucioná-los.

1. Falta de apoio e incentivo

Dificuldades na amamentação são comuns e muitas mães não recebem o apoio necessário dos profissionais da saúde e também da família e dos amigos. Procure ajuda sempre que sentir necessidade – há diversos centros de apoios e consultoras em aleitamento materno que auxiliam e orientam as mães nos diferentes problemas que podem surgir com a amamentação.

2. Dor e fissuras nos seios

A amamentação, no início, pode ser dolorida e as fissuras no bico ocorrem se a pega não estiver correta. “É importante ensinar como deve ser a pega ainda na maternidade. Caso ocorram fissuras, não desista! Passe um pouco do próprio leite no local e exponha a mama ao sol pela manhã ou à tarde, por cerca de 10 minutos, e peça para o obstetra, pediatra ou algum especialista em amamentação avaliar a pega”, indica Gabriel Monteiro.

3. Não se atentar à pega do bebê

Quando o bebê pega somente o mamilo, ele não consegue extrair bem o leite e também pode provocar rachaduras no peito da mãe. “O certo é o bebê abocanhar toda a aréola, não somente o bico, com a boca bem aberta e lábios de peixe. Dessa forma, a mãe sente e ausculta a sucção”, orienta Marina Chicareli.

4. Acreditar que não produz leite suficiente

São poucas as mulheres que realmente têm algum problema e não produzem a quantidade satisfatória de leite para o bebê. “A quantidade produzida está diretamente ligada ao estímulo do bebê sugando o leite. Ou seja, quanto mais o bebê sugar, mais leite o organismo irá produzir”, explica a pediatra. Existem algumas medicações – sempre com prescrição médica -  que podem ser utilizadas para aumentar a produção de leite.

5. O bebê não está engordando

As frequentes idas ao pediatra avaliam o ganho de peso do bebê – não importa se você, sua mãe ou sua sogra acham que o bebê está magrinho. O peso, a qualidade do sono e se o bebê parece tranquilo e saciado após as mamadas são parâmetros para o profissional avaliar como está a alimentação. “Se o bebê está ganhando pouco peso, apesar de todas as tentativas para manter o aleitamento exclusivo, o pediatra pode recomendar a complementação como última opção”, diz a especialista.

Atenção! Caso opte ou seja necessário dar fórmula para seu filho, não escolha sozinha a marca, nem siga a recomendação de outras mães. “O pediatra é a pessoa qualificada para determinar qual a melhor opção para as necessidades do bebê - lembrando que uma boa fórmula é aquela que a criança se adapta e a família tem condições de pagar”, salienta Marina Chicareli.

6. Dupla jornada de trabalho

O fim da licença-maternidade obriga as mães a se reorganizarem para manter a amamentação. O jeito é retirar o leite – manualmente, com bombinha manual ou elétrica. Comece a guardar o alimento do seu filho em frascos esterilizados 15 dias antes do retorno ao trabalho. Na geladeira, o leite pode ser guardado por, no máximo, 24 horas e no freezer, por 15 dias.

O ideal é retirar o leite excedente após as mamadas ou aguardar cerca de 1h30 após a amamentação. No trabalho, retire o leite mais ou menos nos mesmos horários em que seu filho mamaria.

(Foto: Getty Images)