Aniversário

E quando o presente é uma experiência?

Por Priscilla Perlatti

Trocar festa e presentes por uma viagem pode fazer resignificar as datas comemorativas

E quando o presente é uma experiência?

Reconheço que tenho muita sorte das meninas terem avós muito conscientes. Recebo, com certa frequência, telefonemas atenciosos antes dos aniversários e datas "presenteáveis" perguntando: você tem alguma ideia do que posso dar para elas?

Foi durante uma dessas conversas que constatei, com um certo horror, que minhas filhas tinham ganhado um status que sempre critiquei duramente: elas tinham se tornado aquelas crianças que têm tudo, difíceis de se presentear. Brinquedo, jogos, livros, roupas. Me custava lhes achar uma novidade.

Com essa constatação, veio o questionamento: o que é ter tudo? O que elas realmente precisam? O que, de fato, vai fazer jus à importância da comemoração desses dias extraordinários? Achei triste e significativa essa dificuldade de surpreendê-las, já em uma tenra idade (sinal dos tempos, será?).

"Olha, se tudo bem por você, que tal levá-las ao teatro?" Sugeri tanto para minha mãe quanto para minha sogra. "Ah, legal." ouvi do outro lado, com um misto de surpresa e um certo desapontamento. "Mas... O que mais?", uma delas me perguntou. "O passeio É o presente. E se puder ser somente você e elas, melhor ainda. Um tempo a sós com a vovó vai ser especial". Dito e feito.

Naquele ano também propusemos uma troca: ao invés de uma grandiosa festa em buffet, teríamos um piquenique simples e uma viagem em família. O grande presente delas foi ver neve pela primeira vez na (curta) vida. Marcante.

A experiência deu tão certo que resolvemos repetir nos dois anos seguintes, comemorando os aniversários durante viagens bem especiais. Mais do que abastecê-las com recursos materiais, estávamos animados e empenhados, como pais, a proporcionar momentos especiais e memórias que ficarão guardadas para sempre com elas - assim esperamos.

Até que, não mais do que de repente, ao planejar o destino comemorativo desse ano, minha filha delicadamente se posicionou: "sabe, mãe, acho que dessa vez eu vou querer muito os meus amigos por perto. Eles podem ir também???". Ideia genial, mas financeiramente inviável.

E daí me dei conta que alguns aniversários já tinham se passado desde aquele primeiro floco de neve e que o mundo dela já tinha dado algumas voltinhas. Ela tinha entendido perfeitamente a importância de se ter pessoas especiais em lugares especiais - exatamente o que vínhamos fazendo nos últimos anos.

Crescer tem dessas coisas (aqui me refiro não só aos filhos mas também aos pais e mães) e com esse comentário ela me fez perceber que seu conceito de "pessoas especiais" tinha se expandido e agora incluía gente que não necessariamente me era tão cara (com o perdão do trocadilho!). Mas era para ela e isso é o que importava.

Continuamos achando que datas especiais merecem ser celebradas com experiências idem, por isso agora trato de ajustar minhas expectativas às circunstâncias de cada comemoração.

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