Comportamento

Como dosar o mimo

Paparicar os filhos é muito bom, mas saiba que o excesso não significa prova de amor, nem torna as crianças mais felizes e satisfeitas

Como dosar o mimo

Todo mundo sabe reconhecer uma criança mimada, certo? Em geral, é aquela que costuma ser tratada com extremos: se por um lado ouve poucos “nãos”, por outro, vê todos os seus desejos e vontades atendidos – em alguns casos, imediatamente.

São crianças mais resistentes a ter seus pedidos negados, fazem birra, batem o pé, choram e usam a chantagem emocional com mães, pais, avós ou seja quem for que cuide delas.

O pior é que, por mais que recebam, são reféns de tudo aquilo que obtêm, porque jamais se safisfazem. E, nesse estado de permanente insatisfação, dificilmente se sentem felizes. A questão é que os adultos ao redor delas nem sempre se dão conta de que extrapolam nos paparicos. É a velha história: acabam errando, de tanto que querem acertar.

Enchem os filhos de presentes, atendem todas as solicitações (mesmo que isso, de alguma forma, os prejudique), superprotegem fazendo todos os gostos, tentam a todos custo impedir que sofram ou fiquem desapontados...

Porém, de acordo com a psicóloga Cecília Russo Troiano, autora do livro “Vida de equilibrista – dores e delícias da mãe que trabalha” (Ed. Cultrix), quem dá tudo, na verdade, dá muito pouco.

“É preciso exercitar o senso crítico em vez de gerar uma ideia de que o mundo irá sempre e em todos os momentos atender às demandas dessa criança. Agindo assim, os pais criam uma situação fantasiosa, porque ajudar o filho a crescer não é viver num mundo cor-de-rosa. Crescer exige que a criança enfrente obstáculos, encare desafios. Óbvio que o ‘sim’ é mais fácil que o ‘não’, mas o ‘não’ é necessário para o amadurecimento”, afirma.

Na opinião de Mariana Ferreira Ferolla, pedagoga e pós-graduada em Educação Infantil, na maior parte das vezes, os pais que abusam do mimo são os que têm pouco tempo para os filhos e usam de bens materiais e outras coisas para repor a ausência.

“Não se trata de excesso de amor, como muitos tentam justificar. O amor é o mesmo entre os que não mimam. E, é importante lembrar, dar limite e não atender todos os caprichos também significa amar”, pondera.

Criança insatisfeita, adulto inseguro

É comum que questões emocionais motivem o comportamento dos pais, que tentam compensar a culpa pela ausência constante ou as próprias privações que tiveram na infância através de um universo ideal para o filho. No entanto, os prejuízos são bem maiores e graves a longo prazo.

Isso porque a função principal dos pais é preparar os filhos para o mundo, e ao longo da vida provavelmente eles receberão muitos “nãos”. Só que, segundo a psicóloga Cristiane Moraes Pertusi, doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), há o risco de a criança mimada se transformar em um adulto inseguro e sem confiança em si mesmo, porque na infância viu todas as vontades satisfeitas. E, mesmo assim, nunca se satisfez plenamente, pois quem recebe muito quer cada vez mais e jamais se sente contente o suficiente. 

“Adultos que foram muito mimados quando crianças não aprenderam a lidar com a frustração, pois não desenvolveram a capacidade de enfrentá-la ou superá-la. Quando se vêem diante de um problema ou as coisas não saem conforme gostariam, se desestruturam e tentam de todas as formas manipular a situação para conseguirem o que desejam”, explica Cristiane. 

Foi pensando nessas questões que a dentista Maíra Cristina Veronezzi, de 32 anos, resolveu mudar a forma de lidar com Catarina, de 5. “Sempre gostei de dar presentes e quando soube que teria uma menina, me senti no céu, pois poderia enchê-la das bonecas mais lindas”, conta.

“Só que, de tanto ganhar brinquedos, Catarina passou a se desinteressar. Ao mesmo tempo que sempre pedia algo novo quando ia à loja, chegava em casa e logo enjoava daquilo. Nunca se sentia contente, lógico, porque tinha tudo em excesso. Ela não tinha espaço, tempo ou condição de desejar algo, porque a mãe não permitia”, admite.

Hoje, Maíra tenta presentear a filha apenas em datas especiais. Se percebe que a menina quer muito algo, a faz esperar e desejar por aquilo, e ela só recebe se doar algum brinquedo.

Estabelecendo limites

Para Cecília Troiano, é possível, sim, corrigir a rota e instituir uma dinâmica familiar saudável: 

  • O primeiro passo é ter em mente que os filhos não costumam gostar mais dos pais quando são mimados – mesmo inconscientemente, eles conseguem diferenciar ter as vontades atendidas de amor. “Filhos gostam de pais que dão segurança e isso implica ter ‘sim’ e ‘não’ na relação”, diz a psicóloga.
  • A segunda medida é elaborar uma análise sincera da situação e aprender a dimensionar se há ou não exagero no mimo. O problema está na frequência e na forma de dá-lo. Para isso, um dos exercícios é aprender a decifrar a atitude da criança: o que há por trás da birra? Dor, fome, sede, necessidade de chamar a atenção? “O importante é entender o contexto e manter um canal de diálogo com a criança. Normalmente, os pequenos esperam mimos para ter atenção dos pais. Por isso é recomendado sempre ressaltar que você está ali para ajudá-la no que for preciso”, comenta a pedagoga Mariana Ferolla. Ouvir, portanto, é mais importante que atender rapidamente ou presentear.
  • Outro ponto essencial é manter atenção às compensações. “É muito comum ver pais que presenteiam ou agradam a criança para que ela cumpra tarefas e deveres regulares, como escovar os dentes, pentear o cabelo, dormir cedo, fazer a lição de casa ou não implicar com o irmão”, observa Cristiane. Evite recompensar situações rotineiras da criança, pois, além desse valor de troca ser muito ruim, ela aprende a realizar as coisas apenas para agradar ou ganhar algo, e não porque são necessárias e fazem parte de seu crescimento.
  • E, por último, os pais precisam lidar melhor com a própria culpa. O excesso de trabalho e a falta de tempo para estar com os filhos podem ser atenuados se vocês estiverem emocionalmente presentes, oferecendo um ambiente acolhedor que propicia a sensação de conforto, confiança e segurança. “Pais podem estar longe, trabalhando, viajando ou fazendo suas próprias atividades, mas a criança sente seu cuidado e presença e os têm como referência”, afirma Cristiane, que lembra ainda que existem pais fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes.

 

Essas dicas, vale ressaltar, devem ser compartilhadas com demais membros da família e cuidadores: de nada adianta os pais manterem uma postura em casa e a avó e a tia continuarem a exceder nos paparicos, por exemplo.

(Foto: Getty Images)