Comportamento

Eu aprendi a ser destemida, como minha mãe

Por Nívea Salgado
@Mildicasdemae

Antes eu olhava para minha mãe e não sabia de onde ela tirava tanta força. Até que tive uma filha...

Eu aprendi a ser destemida, como minha mãe

Quando eu era pequena, olhava para minha mãe com um certo ar de incredulidade, confesso. Ela trabalhava o dia todo, passava alguns períodos fazendo cursos de aperfeiçoamento, tocava a casa (muitas vezes sozinha), mas arranjava tempo para me levar à natação no meio da tarde, para acompanhar a lição de casa das filhas, para dar colo ao fim de um dia difícil. Ela era a mulher mais forte que eu conhecia, enquanto eu me enxergava muito tímida e quieta.

Eu me perguntava se havia herdado sua força, sua capacidade de realização, de batalhar todos os dias e ser uma vitoriosa. 

Minha mãe tinha aprendido a ser forte com a mãe dela, e minha avó com minha bisavó. Sim, posso dizer que minha família está cheia de mulheres guerreiras.

Minha bisavó, no início do século 20, era uma das poucas mulheres de São Paulo a trabalhar fora de casa, como técnica de radiologia. Eu a conheci e guardo dela a lembrança de uma pessoa ativa até seu último dia de vida.

Minha avó também tinha uma profissão e, graças a ela, conseguiu manter os dois filhos na faculdade de medicina, mesmo se tornando viúva antes dos 40 anos.

Eu olhava para essas mulheres tão intensas e tinha medo de ser apenas uma filhinha de papai, sem muita garra para minhas realizações.

Mas eis que um acontecimento despertou em mim essa habilidade de enfrentar o mundo de peito aberto. De sair de casa disposta a matar um leão por dia, se preciso fosse, para alimentar a cria. Sim, chegamos justamente ao ponto da mudança: ter uma filha.

Não imaginem que essa transformação foi fácil, não! Foi doída! Porque tive que aprender a tomar decisões rápidas ("levo ou não essa criança para o pronto-socorro?"), a me responsabilizar por um serzinho muito frágil, a encarar o medo de que as coisas não dessem certo (até ali, muitas vezes eu não tinha tentado caminhos mais difíceis por receio do fracasso).

Sabem o que descobri? Que muitas vezes você erra mesmo! Quebra a cara, tem que recomeçar do nada, mas que você não morre. Que é capaz de passar noites em claro, dias sem praticamente comer, que consegue tirar seu casaco no frio mais intenso, se seu filho precisar ser aquecido. 

Durante minha infância, eu brincava de ser princesa. Colocava vestidos, dançava, cantava, sem muitas preocupações. Percebi que, quando você cresce, não deixa de ser uma! Porque, cá entre nós, esse universo está repleto de exemplos de princesas destemidas, corajosas - como a Mulan, que literalmente foi à guerra, no lugar de seu pai doente. Ela se vestiu de homem (pois só eles eram aceitos no exército) e salvou seu imperador.

Pensando nisso, não podemos dizer que somos todas princesas no nosso dia a dia?

É preciso muita coragem para enfrentar a batalha diária de uma mãe, que se dedica de corpo e alma ao bem-estar de sua família!

Olhando para minha filha Catarina, eu não tenho dúvidas de que ela tem em seu coração essa mesma força das mulheres da família. Com o tempo, sei que ela a descobrirá sozinha e terá muito orgulho de ser uma princesa do mundo real.

#SouPrincesaSouReal

(Foto: Acervo Disney)