Comportamento

A felicidade das outras mães nas redes sociais faz a gente se sentir infeliz?

Por Samantha Shiraishi
@maecomfilhos

Creio que a capacidade de continuar se sentindo feliz, apesar da felicidade alheia, está na capacidade de sentir mais amor do que medo

A felicidade das outras mães nas redes sociais faz a gente se sentir infeliz?

Converso com muitas mães diariamente e acabo seguindo a rotina de muitas famílias nas redes sociais, em especial no Instagram, que é a rede queridinha da maioria. Os hipsters estão contando suas vidas segundo a segundo no Snapchat, é verdade, mas no geral é no IG, como as mães se referem à rede social de fotos, que tudo acontece.

Nas idas e vindas por lá, ao longo do dia, eu comecei a ler as entrelinhas de comentários e likes nas fotos os outros. Nas minhas também, um pouco, mas principalmente no que leio nas conversas sobre as realizações e as agruras cotidianas de cada um.

O que me chama atenção são comentários frequentes do tipo: “Invejei”, “Também quero”, “Como faço para ganhar estes brindes?” ou mesmo “Morri!” (essa eu acho excepcionalmente triste)...

As palavras parecem inocentes e honestas, mas escondem uma insatisfação com a própria vida que eu me pergunto se a pessoa sentiria se não fosse bombardeada 24 horas por dia com registros da felicidade alheia.

Talvez não, né? Será que antes que as pessoas mostrassem seus menus do dia ao comer, contassem que limpam a casa com alegria, narrassem em detalhes cada minuto em hoteis e cada look do dia com nomes das marcas de cada peça escolhida a gente não ligava menos para a qualidade e quantidade do que temos?

Não sei. Mas sei que a rede não mudou nosso comportamento; ela apenas exacerbou, amplificou o jeito humano de conviver.

Conversando com amigas, uma delas, a Vivi, me falou algo que vai de encontro ao que penso sobre o tema.

“Tudo depende muto do estado emocional de cada um... Pode ser uma percepção rasa, mas se a pessoa está bem consigo mesma, certa de que faz o seu melhor e grata pelas suas bençãos, acho que não ficará infeliz, não... Eu, pelo menos, não me sinto infeliz em ver felicidade alheia, nem de mães, nem de amigas etc”.

Concordo com a Vivi e teorizo que também depende da nossa formação, de como a gente se sente com o que nos representa como indviduos - e aí os bens, as escolhas, os presentes e as oportunidades parecem ajudar a desenhar este ser social que queremos ser ou parecer que somos.

Creio que a capacidade de continuar se sentindo feliz, apesar da felicidade dos outros, está na capacidade de sentir mais amor do que medo.

O desejo de pertencer a um grupo ou outro (e os bens, as conquistas, as vitórias são fatores que a sociedade diz que nos colocam em uma ou outra tribo) é o desejo de pertencer, de ser amado, de fazer parte.

Por isso, invisto na formação dos meus filhos, como seres capazes de amar aos outros e a si mesmos, mais do que nas oportunidades sociais que lhes dou. Meus pais fizeram isso por mim e o amor deles me segue sempre, deixando meu coração cheio, mesmo quando estou só.

E eles me ensinaram a não procurar ser a melhor. Diziam que “sempre vai ter alguém melhor ou pior” do que eu, ou seja, eu poderia viver minha vida sem buscar a perfeição ou o topo do mundo.

Eu ensino para meus filhos que a felicidade está fundamentada na aceitação do que somos, daquilo que sentimos, do que nos é natural e dos sentimentos espontâneos que temos.

Claro que a gente não vai sair por aí atuando na sociedade totalmente “sem filtro”, como numa praia de nudez, na qual somos os únicos seres vivos. Entender o outro faz parte de uma vida harmônica. 

Mas para que esta vida nos traga satisfação, é importante encontrarmos um equilíbrio entre o que nós consideramos importante e o que a sociedade nos sugere como bom.

E deixo para vocês uma frase de Henry David Thoreau, que adoro:

“A felicidade é como uma borboleta; quanto mais você a persegue, mais ela se esquiva. Mas se você se envolver com outras coisas, ela acaba pousando no seu ombro.”

(Foto: Freeimages)