Comportamento

Meu filho sofreu bullying

Nenhuma criança está livre de vivenciar esse problema, mas a família pode ajudar a enfrentá-lo com amor, dedicação, paciência e muita observação

Meu filho sofreu bullying

Uma noite, enquanto contava uma historinha para o filho de 7 anos dormir, a empresária Priscila M. Rodriguez, de 41 anos, foi interrompida pelo menino, que encontrou no aconchego do momento a oportunidade para desabafar com a mãe.

“O André me contou que tinha sido chamada de ‘lixo’ por um coleguinha na escola, que disse ainda que ele ‘nem devia estar estudando ali’. Fiquei chocada com a crueldade das palavras e muito sentida. O André é muito tagarela, mas decidiu me contar só à noite, quando se sentiu protegido. Isso acendeu o sinal vermelho do quanto aquilo tinha machucado meu filho”, conta.

Priscila entendeu que o fato de André ser novo na escola devia estar causando insegurança e ciúme, de algum modo, no outro menino. Nem por isso, no entanto, deixou de sinalizar à direção da escola, que convocou os outros pais para uma reunião e depois fez as crianças envolvidas conversarem (e orientou um pedido de desculpas).

Segundo a mãe, a situação se resolveu, mas ela continuava incomodada com os relatos que ouvia sobre o bullying que o menino seguia fazendo com outros colegas. “Expliquei, então, que ele devia ter compaixão, pois era muito triste alguém tão pequeno ser capaz de dizer coisas tão pesadas. Provavelmente tinha aprendido com alguém que também não o tratava tão bem”, acrescenta.

No fim, quando outras crianças se afastaram ou revidaram as provocações, André se aproximou e se tornou amigo do garoto. A verdade, porém, é que nem sempre as histórias do gênero têm um final positivo como esse.

O bullying pode aparecer já na primeira infância, mas é a partir dos 7 anos que se configura em sua forma mais característica: comportamentos agressivos e apelidos maldosos, humilhações e depreciações, enfim, pequenas crueldades que se repetem e que geram sofrimento no outro.

As consequências são: além de um possível isolamento ou queda do rendimento escolar, crianças e adolescentes que passam por humilhações racistas, difamatórias, podem apresentar doenças psicossomáticas e sofrer de algum tipo de trauma que influencie traços da personalidade, tornando-se mais retraídos e introvertidos, por exemplo. Muitos ficam marcados por toda a vida adulta e há maior tendência à depressão.

Aposte em ferramentas emocionais

Infelizmente, é praticamente impossível blindar os filhos contra o bullying, mas algumas atitudes podem ajudá-los a adquirir boas ferramentas emocionais, caso o problema surja. Afinal, todo mundo está exposto ao problema.

Mas de acordo com a psicóloga Dora Lorch, autora do livro “Como educar sem usar a violência” (Ed. Summus), o perfil mais suscetível ao bullying é o da criança cujos pais não prestam atenção e na qual não costumam acreditar, achando que suas histórias são “fruto da imaginação”.

Aquelas que vêm de famílias excessivamente rígidas ou muito displicentes também são vítimas em potencial, pois o diálogo não costuma ser um hábito em casa. “A conversa ainda é a melhor proteção”, diz Dora.

A psicoterapeuta Carmen Cerqueira Cesar, de São Paulo (SP), afirma que as crianças mais tímidas e retraídas também costumam ser alvo, pois, em geral, apresentam baixa autoestima e insegurança.

“Sendo assim, elas dificilmente conseguem reagir. E além dos traços psicológicos, as vítimas desse tipo de violência costumam apresentar particularidades físicas, deficiências, limitações. As agressões podem ainda abordar aspectos culturais, étnicos e religiosos”, pontua a especialista.

Já os bullies (os praticantes), na maior parte das vezes, são crianças agressivas, que não conseguem ter empatia com os colegas, desejam poder e dominação e encontram satisfação causando sofrimento nos demais. “Muitas vezes, elas próprias são vítimas de agressão. Ou estão passando por problemas intensos e precisam achar uma válvula de escape”, explica Dora.

Segundo Carmen, as ações dos meninos são mais expansivas e agressivas, portanto, mais fáceis de identificar. Eles chutam, gritam, empurram, batem. “No universo feminino, o problema se apresenta de forma mais velada: fofocas, boatos, olhares, sussurros, exclusão. Quem sofre não sabe o motivo e se sente culpada. Embora os meios femininos sejam mais discretos, não são menos prejudiciais”, avisa.

Como ajudar seu filho

Algumas crianças não relatam os episódios de bullying aos pais por vergonha ou receio de represália. Por isso, é importante prestar atenção aos detalhes e observar. Para auxiliar um filho, é preciso saber o que se passar com ele e identificar mudanças.

  • Repare em aflições sem explicação, machucados estranhos, roupas rasgadas ou se ele vem “perdendo” coisas demais.
  • Sinal importante: ele tem medo de ir para a escola, reclama do transporte escolar, quer faltar com frequência ao curso de inglês, não quer ficar mais na casa do amigo à tarde. É bem provável que alguém está amedrontando-o, mesmo que ele não revele o motivo da insatisfação. Vá com calma nas perguntas.
  • Preste atenção em como seu filho se refere aos amigos e às pessoas que ficam com ele.
  • Converse sempre com a criança e não duvide do que ela lhe conta. Se for o caso, verifique com o adulto responsável se a informação é pertinente. Porém, se seu filho está assustado, alguma coisa está fora do lugar. Não descanse enquanto não descobrir o que é.
  • Ouça com interesse e carinho os relatos da criança, se interessando diariamente pelo que ocorreu na escola e no dia a dia dela, a fim de acompanhar a evolução do problema.
  • Evite julgar ou condenar seu filho. Ofereça apoio.
  • Explique que essas coisas podem acontecer e que as crianças também devem aprender a enfrentar os problemas como os adultos, com a ajuda deles.
  • Nunca ensine a revidar um ato violento com outra manifestação de violência. Oriente seu filho a se defender com palavras ou procurando o apoio de um adulto próximo. Explique ainda que é importante saber conviver com as diferenças e que provavelmente a agressora ainda não consegue conviver com isso.
  • Lembre-se: uma criança com boa autoestima é capaz de lidar com o bullying e até mesmo de neutralizá-lo ao não se deixar atingir.

 

Quando o bullying acontece na escola, é comum que alguns pais pensem em tirar a criança imediatamente e matriculá-la em outra instituição. Segundo especialistas, essa não é uma solução viável.

“É uma atitude recomendável se a escola não fizer nada para neutralizar a situação, mas é fundamental avaliar se seu filho não precisa de atendimento psicológico para conseguir se defender e sair do lugar da vítima. Isso é comum em crianças muito cordatas, que não sabem dizer não para os amigos”, opina Dora Lorch.

Como ela lembra, trata-se de uma docilidade que pode ser muito ruim no futuro, quando, por exemplo, na adolescência, alguém oferecer drogas. “Ensinar seu filho a dizer 'não' para o que ele acha ruim é muito importante”, pontua.

Vale lembrar que, embora mais associado ao ambiente escolar, o bullying pode acontecer em outros ambientes, como clube, academia, casa de parentes, vizinhança e até mesmo dentro da própria casa ou no âmbito virtual. E, às vezes, vêm de adultos – como professores.

Outro ponto a se considerar é que as crianças que observam as agressões também são afetadas, mesmo que não participem delas ou as estimulem. Elas vivem com medo, se sentem impotentes diante desse comportamento e sofrem com a culpa por não agirem.

Ou seja, o bullying atinge não apenas a vítima e o agressor, mas todo o entorno. É preciso manter os olhos e os ouvidos bem atentos.

(Foto: Getty Images)

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