Comportamento

O empoderamento feminino começa em casa

Meninas criadas de forma livre e estimulante têm maiores chances de se tornarem mulheres confiantes. Como você está criando suas filhas?

O empoderamento feminino começa em casa

Há pelo menos um século as mulheres lutam para ter as mesmas oportunidades que os homens. Evoluímos bastante, é verdade, mas o fato é que ainda não chegamos lá.

O relatório Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016, divulgado recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU), mostrou que os salários das mulheres ainda são menores que os dos homens na mesma função. Ganhamos, em média, 1/4 a menos do que eles.

Diversos motivos podem explicar essa situação, mas o principal deles talvez seja a diferença que ainda existe na forma de tratamento dos meninos e das meninas em casa.

“A educação é uma ferramenta importante porque é nela que estão os componentes que definirão o padrão mental de cada um dos seres humanos. Quanto mais se aprimoram as informações que as mulheres recebem na sua formação, mais elas contribuirão para padrões de comportamento de sucesso”, explica a psicóloga Eliane Rasera.

Não se trata aqui de generalizar, considerando que mulheres de sucesso são somente aquelas que têm uma carreira brilhante. Uma mulher de sucesso é aquela que teve acesso a diversas oportunidades e liberdade de escolha para ser (e fazer) o que quiser. Ou seja, o empoderamento feminino começa em casa.

Exemplo desde cedo

Neivia Justa é diretora de Comunicação e Relações Públicas de uma multinacional. A executiva tem uma carreira longa e respeitável na área de comunicação corporativa e simplesmente ama o que faz. Casar nunca foi o sonho de sua vida, mas ela conta que isso simplesmente acabou acontecendo de forma natural.

Assim que engravidou da primeira filha, tomou uma decisão: fez uma pausa na carreira para se dedicar mais à família. Apesar de ter escolhido priorizar o cuidado das meninas (teve a segunda filha dois anos depois da primogênita), nunca abriu mão de sua vida pessoal, como é comum acontecer com muitas mães. Nesse período, continuou trabalhando em um projeto próprio, que lhe permitia horários mais flexíveis.

Neivia acredita que esse é um dos principais fatores que explica o fato de criar suas filhas de forma livre, já que ela não carrega nenhum tipo de frustração em relação ao nascimento das meninas.

Depois que elas ficaram um pouco maiores, a diretora retomou a carreira corporativa e afirma que o segredo para conseguir conciliar as rotinas de mãe, executiva e mulher é não ter medo de delegar funções.

“Quando as meninas me perguntam por que eu vou trabalhar, eu digo sempre que é porque eu gosto muito do meu trabalho e ele me permite ser uma mãe melhor para elas. E quando elas me perguntam o que eu gostaria que elas fossem quando crescerem, eu digo: ‘Felizes’”, afirma.

A executiva acredita que seu papel como mãe é prover o maior número de oportunidades possível para suas filhas, sem transferir seus próprios desejos e expectativas para elas.

“Eu fui bailarina e imaginei que minhas filhas também poderiam querer seguir esse caminho. Nunca quiseram. Na hora de escolher a aula de dança, optaram por street dance”, conta, bem-humorada.

Criar filhas e filhos para o mundo

A empreendedora Claudia Brasil Iglesias, que é mãe de duas filhas e um filho, pensa da mesma forma que Neivia: seu papel como mãe é mostrar para eles, independentemente do sexo, que são capazes de fazer o que quiserem. Para isso, apresentou o maior número de ferramentas possíveis, seja através de cursos, livros ou conversas, para que fizessem suas próprias escolhas de vida.

Hoje, ela mora em Salvador. A filha mais velha, médica, voltou para a cidade natal, depois de ter vindo fazer faculdade em São Paulo na USP. A filha do meio, também veio para Campinas (SP) fazer faculdade de Engenharia Elétrica e se mudou para São Paulo, onde trabalha em uma startup e está se preparando para fazer um MBA no exterior por dois anos. O filho mais novo volta agora de um intercâmbio na Austrália.

“Criei meus filhos para o mundo. É claro que tenho saudade deles, mas, para mim, o mais importante é eles estarem bem onde estiverem”, afirma.

5 dicas para criar meninas confiantes

A psicóloga Eliane Rasera concorda com as posturas adotadas por Neivia e Alice, que estão criando suas filhas para serem mulheres livres, seguras e cientes do potencial que têm para serem o que bem entenderem, independentemente das expectativas dos pais.

Para ajudar nesse processo, ela aponta caminhos de como criar suas garotas da mesma forma:

  1. Demonstre amor pelas suas filhas. Essa pode parecer uma dica óbvia, mas extremamente importante e, por isso, vale a pena reforçar. “Toda criança que se sente amada - que é diferente de ser mimada -, respeitada e tratada com carinho e afeto tende a se sentir mais segura”, afirma Eliane.
  2. Ouça o que sua filha tem a dizer. Manter uma rotina de conversas transparentes e diretas é uma ferramenta forte no empoderamento das meninas. “Dê atenção e considere sempre a opinião dela sobre os fatos, sem subestimá-la”, diz.
  3. Ofereça atividades em diversas áreas. Sua filha pequena só irá saber que existem tantas oportunidades nesse mundo se você apresentá-las para ela. “É importante dar oportunidade para que a menina desempenhe suas atividades em qualquer área, mesmo na hora da brincadeira”, observa.
  4. Ensine-a a nunca se sentir inferiorizada. O preconceito contra as mulheres ainda existe e é função das mães criarem meninas que enfrentem esse cenário e sintam-se orgulhosas por serem mulheres.
  5. Elogie e dê limites. É importante sempre reconhecer as qualidades de sua filha (não só físicas, mas também emocionais e intelectuais), sem nunca, entretanto, deixar de impor limites para seus comportamentos e atribuir responsabilidades adequadas à idade dela.

 

(Fotos: Getty Images)