Comportamento

O que é ser uma 'mulher direita'?

Por Renata Deos

No Brasil e no mundo grupos promovem iniciativas pela igualdade de gênero e o fim do uso da figura feminina como objeto em campanhas publicitárias

O que é ser uma 'mulher direita'?

Nem tinha chegado a sexta-feira. Era quarta, dia 4 de fevereiro, e os festejos do Carnaval estavam para começar. O primeiro incidente relacionado ao desrespeito com as mulheres aconteceu nesse dia. Foi em um bar na Vila Madalena, em São Paulo.

Apesar de várias campanhas como #Meunúmero é 180 da ONU e ‪#‎CarnavalSemAssédio‬, criado em parceria pela Revista AzMina, Catraca Livre e os movimentos ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬, Vamos Juntas? e Bloco das Mulheres Rodadas, parece que alguns homens ainda não entenderam como se comportar perto de mulheres bonitas.

Entendo que existe uma cultura machista difícil de mudar da noite para o dia, mas fiquei chocada ao saber da pesquisa feita pelo Data Popular - e divulgada coincidentemente dois dias após esse episódio do bar - com o seguinte resultado: dos 3,5 mil brasileiros com idade igual ou superior a 16 anos, em 146 municípios, 49% acham que bloco de Carnaval não é lugar para mulher "direita". 61% dos homens que responderam também afirmaram que uma mulher solteira no Carnaval não pode reclamar de ser cantada.

Oi? Mulher direita?

Me deu vontade de falar: pode parar tudo!

Ainda estamos discutindo mulher direita, mulher para casar? Aff... Que preguiça, homens do meu Brasil!

No dia 5 de fevereiro, em um ônibus no trajeto Rio-Niterói, uma integrante do Bloco Mulheres Rodadas foi agredida fisicamente ao defender uma vítima de assédio.

Na mesma sexta-feira, uma jovem foi agredida em Salvador, no circuito Barra-Ondina, por recusar um beijo de um rapaz. O resultado foram oito pontos no rosto, além de hematomas. 

Esses são alguns dos episódios divulgados amplamente. Essas agressões que tomamos conhecimento aconteceram em grandes cidades. Imagino que muitas outras devam ter ocorrido, infelizmente.

Apesar da tristeza em saber que as mulheres ainda passam por esse tipo de constrangimento, esse tipo de crime, que ainda terão de lutar para mudar a situação, temos hoje um espaço que permite compartilhar com quem está disposto a ajudar a mudar esse cenário de horror.

De tanta repercussão que as meninas assediadas no bar em São Paulo tiveram, conseguiram que o estabelecimento viesse a público se desculpar pelo ocorrido e garantir uma investigação dos fatos. E o melhor, as meninas conseguiram, acredito eu, que outros estabelecimentos tomem mais cuidado quando tratarem situações de assédio.

Seja individualmente ou coletivamente, o espaço virtual ajuda a denunciar os abusos e a revelar que, apesar de estarmos em 2016, alguns bárbaros ainda vivem entre nós.

No Brasil e no mundo existem grupos que promovem iniciativas pela igualdade de gênero. E há inclusive uma ferramenta colaborativa, desenvolvida pela jornalista brasileira Juliana Guarany, que coleta dados dessas iniciativas e faz ligações de atividades similares em países diferentes.

Para conhecer a ferramenta - chamada FemMap - e descobrir alguns dos projetos e campanhas em prol das mulheres, basta acessar o site.

Somos #MulheresNãoObjetos

Das várias campanhas que acontecem simultaneamente promovendo a igualdade de gênero e contra a depreciação da mulher, uma me chamou bastante a atenção. Se chama #WomenNotObjects (#MulheresNãoObjetos). 

Ela foi criada pela executiva Madonna Badger, da agência de publicidade Badger & Winters, de Nova York, no início de 2016. 

O tema não é atual: o uso da figura feminina em campanhas publicitárias como objetos e até mesmo sem o menor sentido, apenas para apelar para ao sexo. Aqui no Brasil tivemos intervenção do Conar (Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária) sobre o uso de mulheres de biquíni nas propagandas de cerveja.

Eu não sou militante feminista, mas ao ver esse tipo de campanha publicitária fico imaginando as consequências no mundo real, fora da fantasia "artística" publicitária. Será que um menino, adolescente e homem conseguem diferenciar um anúncio de revista estereotipado do que é uma mulher de verdade? 

Sinceramente, acredito que não. Ao ver mulheres em poses e situações degradantes, o imaginário masculino tende a tomar como banal, piada, algo tão sério.

Um vídeo autoexplicativo está circulando nas redes sociais sobre o por que devemos, nós mulheres principalmente, falar sobre esse assunto e "pedir" às agências que não nos use como objetos.

(Fotos: Instagram Meu Número [destaque] e campanha #CarnavalSemAssédio/ Divulgação)