Comportamento

As princesas de hoje

As princesas que gostamos são mulheres que arriscam, inspiram, exploram, se atrevem e vão mais longe em busca de seus sonhos

As princesas de hoje

Ninguém em sã consciência quer as filhas presas até a chegada de um príncipe para salvá-las. Ao menos eu me esforço para criar filhas que se libertem de suas próprias prisões, escalem suas próprias torres e elejam a quem beijar quando estiverem acordadas.

Já reivindicamos aqui por princesas despenteadas. Merida com seus cachos ao vento, desafiando seus pais e a si mesma com cada flecha, nos parece bastante simpática. Mesmo que agora nós sejamos os pais do outro lado do arco.

O problema é a definição que nós temos das princesas. Uma questão de geração, por pior que soe. Porque nossas filhas andam vestidas de Bela enquanto sobem em suas bicicletas a toda velocidade, combinando os vestidos com os sapatos, e ficam lindas. A nós, adultas, mães rainhas em um mundo mais duro para as mulheres, nos foi dito que tínhamos que ser bonitas, e logo, se fossemos bonitas, éramos burras. Espero que nossas filhas possam crescer ouvindo coisas diferentes.

Em nossa casa temos princesas por todos os lados, nos vidros da janela, nos lençóis, nos filmes. Mas agora elas convivem com super-heróis e monstros mitológicos. Com a certeza de que são princesas que não precisam ser servidas ou resgatadas.

As princesas encarnam valores particulares, próprios e diferentes e o que as une é a ideia de que “a beleza nasce de ser você mesma” e então, essa beleza será sempre diferente. Sou atraída pela ideia de que entendam que ser bom te faz belo e nunca o contrário.

Nossas filhas não andam pela vida cantando com vozes agudas, rodeadas por passarinhos e pisando em flores. Graças a Deus, senão me mudaria sozinha para outro lugar. Elas são herdeiras do reinado da nossa casa. Isso inclui, inclusive, os erros e os defeitos que temos. E ter que arrumar o quarto, entre outras coisas.

Em mim não colocam um vestido de babados e um espartilho nem à força. Mas me parece uma coisa boba ficar renegando as princesas. Rapunzel desceu de sua torre quando lhe valeu a pena, Bela leu uma biblioteca inteira sem se importar com que os outros diziam, Mulan, vestida de homem, lutou as batalhas que considerou necessárias. Tudo isso são coisas fantásticas que gostaria de passar para minhas filhas. Respirar a ideia poderosa de que a única maneira de ter um reino em que queira viver é sendo você mesma.

As princesas e as filhas de hoje se arriscam. Exploram e se atrevem a ir além para conquistar seus sonhos. Será que cada geração tem as princesas que precisa e que merece? Parece divino que alguém mate um dragão por você, mas suponho que o único jeito de aceitar uma oferta semelhante é sabendo que vai poder devolver a gentileza.

Gostamos das princesas que se despenteiam. Gostamos também da ideia de que você pode ser uma mulher e pegar em armas, sem ter que tirar o vestido, se gosta de como ele fica em você. Que a ternura e a busca da beleza não se opõem aos empenhos e aos propósitos. Que você tem que ser boa mesmo na luta, que pode seguir jogando por toda a vida e que, por via das dúvidas, saiba que no amor estão todas as respostas.

Gosto dessas princesas bem resolvidas, porque delas tiro inspiração para criar e, sobretudo, propósitos que já vejo em minhas filhas e que aprendo.

Essas princesas nos mostram que coroas não se herdam, porque é muito melhor conquistar a sua. Que assim seja.

Por Beta Suarez

(Imagem: Getty Images)