Comportamento

Quando um filho é mais inteligente do que a média

Por Samantha Shiraishi
@maecomfilhos

É hora de descobrir quais são os benefícios de ter uma inteligência abençoada e como lidar com isso em nossas crianças

Quando um filho é mais inteligente do que a média

No verão, fui ao cinema com meus filhos, curtindo que, pela primeira vez, os dois podiam ver alguns dos filmes indicados ao Oscar comigo. Começamos com O Jogo da Imitação, filme sobre o matemático Alan Turing, uma história extraordinária, mesmo para quem acha que sabe muito sobre a Segunda Guerra Mundial. 

Mas nossa surpresa veio de outro ponto: a inevitável comparação de alguns comportamentos e das dificuldades sociais do nosso “portador de altas habilidades” com o personagem do filme. Pois é, por aqui temos um garoto que tem QI acima da média e sabemos bem como isso pode ser complicado na prática.

Há pelo menos 13 anos sabemos que nosso filho é diferente. Com menos de 1 ano ele falava e montava legos. Antes dos 18 meses sabia todas as letras do alfabeto e brincava com quantidades de números. Aos 3 e meio nos surpreendeu com dados precisos que desconhecíamos e que ele lera num livro sobre seus heróis. 

Quando ele tinha 5, a escola se incomodou e, após meses de avaliações multidisciplinares numa clínica de psicopedagogia, tivemos o diagnóstico de que ele tinha altas habilidades em algumas áreas, embora física e emocionalmente correspondesse à sua idade cronológica. 

Não alardeamos isso, mas em pouco tempo com ele, as pessoas notam e começam a fazer perguntas ou enaltecer as diferenças. Isso fez com que seu comportamento social, já com tendência a ser introspectivo, piorasse muito.

Trabalhamos isso e, por incrível que pareça, a adolescência tem ajudado bastante. Nessa fase, seu desenvolvimento físico mudou esta realidade (aos 14, todo mundo diz que parece ter mais de 18) e as pessoas se surpreendem cada vez menos com seus feitos.

E aqui mora um novo desafio de ser mãe de um filho especial. Como diz meu compadre (ele também portador de altas habilidades), preciso preparar meu filho para ser normal e comum. 

Daqui a pouco ele será adulto e as pessoas não vão mais se surpreender, aplaudir e valorizar sua capacidade. Ele será mais um cara capaz, mas não mais “o” garoto inteligente. Pior, podem até fugir de ter “gente assim” por perto pois, como colegas de trabalho, cônjuges ou mesmo vizinhos. Os superinteligentes podem ser bem incômodos. 

Boa parte do sistema educacional ocidental é direcionado a melhorar a inteligência acadêmica e valoriza ao extremo o Quociente de Inteligência (QI), que ainda é a principal maneira de medir habilidades cognitivas. Mas estudos, ainda do século XX, provam que um grande intelecto não faz diferença em relação à sua satisfação com a vida - pode significar uma sensação maior de vazio!

A solidão é um dos problemas comuns detectados em pessoas com inteligência acima da média. Mas nas conversas com meu filho adolescente, noto outro drama mais grave: um sofrimento pela humanidade.

Dizem que pessoas mais inteligentes geralmente têm uma visão mais clara sobre os problemas do mundo e que, enquanto o resto de nós se mantém distante das crises existenciais, alguns perdem o sono sofrendo pela condição humana e pelos erros dos outros. Nem tudo é profundo, grave, filantrópico, claro.

Comprovo no cotidiano o estudo do canadense Alexander Penney, da MacEwan University, sobre a ansiedade exacerbada comum em estudantes de QI mais alto: a maioria das preocupações é banal e cotidiana. 

“Eles não se inquietam por coisas muito profundas, mas se preocupavam mais frequentemente sobre mais coisas. Se algo ruim acontecia, eles passam mais tempo pensando naquilo.”

Mas, como mãe, o que me importa é que causa sofrimento real. Ver um filho sofrendo é de partir o coração; não creio que alguma mãe esteja preparada para isso. 

Não estou dizendo que todo mundo com um QI alto seja um gênio torturado, como a cultura popular costuma mostrar. Mas ainda é desafiador e, num momento em que tantos de nós têm inteligência acima da média, devemos descobrir quais são os benefícios de ter uma inteligência abençoada e como lidar com isso em nossas crianças. 

Como pais, entendo que o desafio é acompanhar, orientar e ajudar nossos filhos a se conhecerem, em suas qualidades e em seus próprios defeitos. E mostrar exemplos reais, de quem conseguiu repousar sobre os louros da sua inteligência durante toda a vida, deixando claro que nossos filhos vão sempre encontrar alguém superior ou inferior em algum aspecto.

Quem sabe se, no final, eles comprovam as palavras de Sócrates, de que “o sábio é aquele que pode admitir que não sabe nada”.

(Foto: Freeimages)