Comportamento

"Tenho marido, mas me sinto mãe solteira"

Sobrecarga de tarefas em casa e atenção extra com os filhos são alguns dos problemas que muitas mulheres se deparam. Veja como enfrentá-los para melhorar a vida em família

"Tenho marido, mas me sinto mãe solteira"

Casada há 11 anos e mãe de um casal de gêmeos de 4, a professora e tradutora Ana Clara*, 35, está à beira da exaustão. Embora tenha horário flexível e trabalhe em casa, ela revela que não vem dando conta de todas as tarefas domésticas e dos cuidados com as crianças.

“Gostaria que meu marido dividisse mais os compromissos comigo. Somente eu sou a responsável por levá-los à escola ou ao médico, comparecer às reuniões de pais, lembrar de dar remédios, comprar roupas... Não tenho tempo para nada”, reclama.

Já a administradora de empresas Joana*, 42 anos, trabalha a mesma quantidade de horas que o marido, mas nem por isso recebe a ajuda necessária para atender as demandas da filha de 5 anos. “Ele acha que, por eu ser mulher, faço melhor certas coisas. Só que eu nunca as tinha feito antes de ser mãe, né? Se ele se dispusesse a agir, também aprenderia”, avalia.

Não são poucos os momentos que Ana Clara e Joana se sentem mães solteiras, apesar de terem marido.

O que acontece é que, segundo a psicóloga Juliana Bonetti Simão, de São Paulo (SP), apesar de atualmente percebermos uma mudança na atitude masculina em relação à participação nos cuidados e na vida dos filhos, muitos ainda se encontram “contaminados” com uma visão machista e ultrapassada de que cabem à mulher os cuidados com os filhos e a casa, enquanto a eles, trabalhar e gerar renda.

“É preciso considerar, porém, que hoje a mulher também trabalha e contribui de forma significativa com a provisão do lar, e a vida conjugal vem sofrendo modificações a partir dessa realidade sócio-econômica-cultural”, comenta Juliana.

Da mesma forma que é imprescindível a presença de um homem e uma mulher para a concepção de um filho, é fundamental a presença dos dois para que o pequeno se desenvolva de forma adequada.

“Muito se fala e se sabe acerca do papel da mãe na vida do bebê, porém, pesquisas atuais vêm demonstrando a influência da presença do pai no desenvolvimento da afetividade, do vínculo, da autoestima e da inteligência da criança”, afirma a especialista.

Por que, então, alguns pais contemporâneos ainda não participam de forma efetiva e nos deparamos com situações como a citada acima?

Para a psicóloga e sexóloga Carla Cecarello, de São Paulo (SP), um dos fatores por trás da questão são os padrões que a educação conservadora dada na infância deixou em homes e mulheres.

“Desde pequenas nós aprendemos a cuidar através das brincadeiras de boneca, de casinha, de escolinha. Os homens, principalmente aqueles criados por mães com princípios machistas, não tiveram esse preparo. Isso não significa que os homens devem se isentar de suas responsabilidades e de suas habilidades como pais. Basta querer”, avisa.

Outro problema, segundo Juliana, acontece quando a própria esposa não dá espaço para que o marido participe dos cuidados com o bebê, carregando a certeza de que ela é quem sabe fazer o que o filho precisa. Ela reclama, mas não se posiciona.

Vale lembrar que, com exceção do ato de amamentar, papel exclusivo da mulher, todas as outras tarefas podem ser feitas pelo pai.

Já que é assim, eis algumas dicas para evitar ou melhorar a situação:

  • Compreenda que o marido deve participar da gestação desde o início. Ele não toma a iniciativa? Convoque-o.
  • Não substitua a parceria do marido nos cuidados com o bebê pela das avós. “Mostre que é a participação dele é necessária”, destaca Juliana.
  • Ajude o parceiro a conhecer a importância na vida do bebê desde cedo, pois muitos homens não têm mesmo a mínima ideia sobre o que fazer e sentem-se desnecessários.
  • Nunca pense que o filho é só seu. Se agir assim, o homem percebe e acaba se afastando. Portanto, divida-o com ele.
  • Procure deixar a criança sob a responsabilidade do parceiro para ter vida própria, descanso e lazer. “Faça isso ao precisar sair com as amigas, ir ao mercado, ao cabeleireiro etc”, diz Carla.
  • Organize a rotina da família contando com a agenda do marido. Assim, ele vai perceber que faz parte de todo o processo, inclusive para administrar os horários em função dos filhos.
  • Divida funções. Especifique o que cada tem a fazer. Se preciso, cole a lista na geladeira ou em algum lugar visível por todos.
  • “Não fique criticando se ele fez certo ou errado. Lembre-se: ele não faz exatamente como você, apenas diferente. Aceite isso!”, sentencia Carla.

 

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das entrevistadas.

(Foto: Getty Images)