Comportamento

Você faz maratona de séries? Você pode estar deprimido!

Por Renata Deos

Pesquisa associa comportamentos como depressão, solidão e inabilidade de autocontrole com compulsão por séries

Você faz maratona de séries? Você pode estar deprimido!

Quem nunca engatou um episódio em outro? Ficou o fim de semana de pijama assistindo sua série favorita sem parar? Bem... parece que a gente pode estar deprimida. É o que estudos recentes estão descobrindo a partir do que chamam de compulsão por séries.

É claro que nem todo mundo que assiste à vários episódios seguidos se enquadra nesse perfil de comportamento, mas o fato é que assim como a compulsão por comida e jogos, as séries também são "viciantes" ou aditivas (termo correto).

Uma recente pesquisa realizada na Universidade do Texas, liderada pelos doutorandos Yoon Hi Sung e Eun Yeon Kang e pelo professor Wei-Na Lee, relaciona compulsão por assistir séries à depressão. Entende-se compulsão assistir dois ou mais episódios de uma só vez.

A "binge-watching" (compulsão por séries), como tem sido denominada nas pesquisas, associa comportamentos como depressão, solidão e inabilidade de autocontrole.

Esse problema é relativamente novo, por isso começam a surgir estudos e pesquisas. Porém, o distúrbio da compulsão é um velho conhecido. A compulsão por comida e bebida já foi e continua sendo estudada há anos.

Em uma entrevista ao site independente NPR, Chad Bingo, um dos alunos do Siena College que participou de outro estudo, em 2014, sobre compulsão por séries, revelou que as respostas obtidas são muito similares às da compulsão por comida e bebida. E a maior semelhança é a sensação da necessidade o tempo todo. Ou seja... A grande dificuldade em abandonar o comportamento compulsivo.

Assitir séries é uma forma de entretenimento. E essa é a proposta original da televisão, certo?

Se formos buscar por estudos mais antigos, há um da Universidade de Maryland, concluído em 2008, mas que analisou 30 anos de comportamento das pessoas que assistiam à televisão. A conclusão? Quanto mais tempo na frente da telinha, mais infelizes eram.

Os sociólogos de Maryland, John Robinson e Steven Martin, têm um montão de dados e análises muito bem fundamentados, mas dois dados me chamaram atenção e acredito que se relacionam com a atual compulsão por séries:

  1. Crise econômica
  2. Fuga da realidade

 

Nada tem a ver com a Netflix dar apenas 15 segundos entre um episódio para outro o fato de aumentar a compulsão pelos episódios. Ou a oferta maior de séries com temporadas inteiras de uma só vez.

Assim como revelou a antiga pesquisa, a crise econômica aumenta o desemprego e as pessoas com mais tempo livre assistem mais televisão. E pessoas desempregadas não estão felizes, por consequência, se fecham, tendem a solidão, a depressão...

Sobre o segundo dado, a fuga da realidade, assistir à séries compulsivamente pode significar tentar preencher um vazio insuportavelmente desconfortável do dia a dia do qual não se pode fugir a não ser por meio do entretenimento de horas de séries seguidas. Não é por coincidência que no ranking das séries mais "viciantes" estão as de comédia e romance, segundo revela a pesquisa da Universidade do Texas.

A compulsão, como disse, não é um distúrbio novo. E para mim, o que acho mais importante em ter estudos e pesquisas e poder conhecê-los é que eles nos ajudam a entender como essas novas formas de compulsão se correlacionam. Que o mundo volta a um estado que propicia comportamentos repetitivos e a gente pode conscientemente perceber que naquele fim de semana que preferimos fazer a maratona de séries estamos fugindo de alguma coisa. E tudo bem. Fugir é uma opção quando enfrentar não é possível naquele momento.

Você costuma fazer maratona de séries?

(Imagem PhotoDune)