Cozinha

Como atrair o marido para pilotar as caçarolas

Por Patrícia Cerqueira
@Comida Boa Muda Tudo

Compartilhar a função de cozinheiro da casa pode ser um alívio para a mulher, desde que se entenda qual a expectativa dela

Como atrair o marido para pilotar as caçarolas

Queridos maridos,

Hoje escrevo pensando em vocês, para dizer que as mulheres gostam, sim, quando a função de cozinheira é compartilhada com mais alguém além delas. Pode parecer que não, mas esse compartilhamento dá um alívio tão bom para o cérebro e as pernas! Digo isso por experiência própria.

Durante a semana, a responsabilidade pelo que vai para a mesa, no almoço e no jantar, é minha. Passo o bastão dessa função para o marido aos finais de semana. Nem sempre foi assim. Aliás, na maior parte do tempo que estamos casados (18 anos), ele evitou ao máximo a cozinha, quase tanto quanto eu. Só que um dia alguém teve de assumir as caçarolas e alimentar a galera de casa. 

O afastamento dele acontecia por várias razões, mas uma delas era a mais marcante: ele achava que não sabia cozinhar. Até que eu o incentivei a ir para a cozinha. Deu muito certo!

Desde que essa aventura dele começou, há pouco mais de 3 anos, percebo que só evoluiu, tomou gosto e amor pelo que faz entre forno, fogão, tábua de carne, processador de alimentos. Ele se diverte buscando receitas na internet para fazer aos finais de semana, pilotando o fogão, descobrindo maneiras diferentes de usar determinado ingrediente.

Se tornou tão eficiente que os almoços de domingo feitos por ele já viraram eventos familiares. Meu pai, por exemplo, sempre muito comedido no prato no dia a dia, se esbalda, faz "prato de pedreiro", quando a refeição é preparada pelo genro.

Ele escreveu um texto lindo sobre a experiência de fazer uma coisa nova, pela primeira vez, e que envolve tantos sentidos e sentimentos. Está no Comida Boa Muda Tudo.

A única exigência do marido desde sempre: ele não me quer na cozinha porque fico palpitando no trabalho dele. A minha exigência: além da comida ser boa, a cozinha não pode estar caótica. Porque nosso acordo é: quando um cozinha, o outro fica com a louça pós-refeição.

Nas primeiras vezes, eu entrava na cozinha e tinha a sensação de que há três dias ninguém arrumava nada. Até as paredes e portas de armários estavam engorduradas e tinham espirros de molho, além do estado deplorável do chão, pia, fogão, bancada...

Fui ensinando, aos poucos, que é possível manejar quatro panelas e lavar a louça, quase ao mesmo tempo.

Tenho muitas amigas cujos maridos resistem a dividir essa função. Dão várias deculpas para fugir das panelas. Nenhuma convincente o suficiente. Quero dizer, existe uma que é convincente.

A de que, nós, mulheres, reclamamos demais, achamos mais defeitos do que qualidades quando eles se aventuram entre farinha, ovos, azeite e bacon.

Tentando ser mediadora desse conflito, elenco algumas expectativas femininas quando os maridos vão para cozinha:

  1. Acho que a principal expectativa feminina é de comer bem, de provar uma comida boa, que provoque sensações prazerosas, quase orgásticas.
  2. Que o cozinheiro seja organizado no preparo. Nada mais brochante do que ter de enfrentar uma cozinha caótica, bagunçada e suja depois de um jantar divino.
  3. Que saibam onde estão os utensílios, afinal, vocês não são hóspedes de uma pensão/hotel, lugares onde a gente nunca pisa na cozinha.
  4. Que tenham noções de higiene e saibam que, antes de cozinhar, é preciso lavar as mãos, tirar aliança, não coçar a barba em cima dos alimentos, que pano de prato é para secar prato e não o peito de frango.
  5. Que somos implicantes quando os homens invadem um território que é tão feminino porque fomos criadas dentro desse território. A grande maioria das mulheres (uma delas deve ser a sua esposa) começa a ajudar a mãe na cozinha na infância e recebe a incumbência de lavar a louça do almoço no final de semana quando entra na adolescência. É monitorada, muito provavelmente, por uma mãe exigente. Para não dizer chata. Nos acostumados com um grau de exigência na organização da cozinha muito alto. O mesmo não costuma acontecer com os meninos, infelizmente. Meu marido conta que a mãe dele não o deixava entrar na cozinha. Na minha casa, minha mãe não só colocava a gente para cozinhar, como também para limpar. Percebe o choque de educação? Então, melhor não discutir nem reclamar.

 

Sabendo disso, penso que fica mais fácil entender certa resistência e pentelhice das mulheres quando o assunto é homem na cozinha. Acho que não é tão difícil fazer uma comida boa, lavar os utensílios enquanto cozinham para, no final do preparo do prato, não se tenha muita desorganização.

Além, claro, de ler muito bem como é a receita, modo de preparo e checar a presença de todos os ingredientes. O livro do Jamie Oliver "30 Minutos e Pronto" é bem legal para aprender a organização a excução de cada prato.

Ele vai indicando qual prato se faz primeiro e, enquanto este marina, cozinha, frita, o que você deve fazer a seguir. Acho que vale o investimento para os maridos que desejam cozinhar, mas não sabem muito bem por onde começar.

Acham que é possível?

Um abraço e boa sorte!

Patricia

(Foto: Getty Images)