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Ninguém espera um aborto espontâneo, mas...

Comum em gestantes, principalmente, acima dos 40 anos, problema nem sempre é evitado, mas pode ser superado para que a mulher consiga ter o seu tão desejado bebê

Ninguém espera um aborto espontâneo, mas...

“Apesar de já ter dois filhos (Rafael, de 18 anos, e Ingred, de 14), eu e meu marido desejávamos mais um bebê, mesmo eu já tendo quase 40 anos. Tomei todas as providências necessárias: fui ao obstetra, fiz vários exames para saber se estava saudável e escutei as recomendações do médico, que me explicou sobre os riscos de engravidar após os 35 anos. Eu estava decidida!

Após algumas tentativas, descobri que tinha conseguido engravidar e estava muito feliz. Minha maior preocupação era o primeiro trimestre, período em que ocorre a maioria das perdas. Passei bem por ele, mas, infelizmente, quando eu estava me aproximando do quinto mês, comecei a sangrar.

O desespero foi enorme e veio acompanhado do medo de perder o que era, naquele momento, o mais importante. Senti como se meus desejos estivessem indo por água abaixo, num turbilhão de emoções. Perdi o bebê...

Busquei forças nos braços do meu marido, nos ombros dos meus amigos e, mesmo com tanta tristeza que me corroía, eu estava disposta a lutar por um bebê novamente. Esperei meu corpo se recuperar e comecei a tentar – naquele momento até com mais medo do que antes, porque eu tinha passado pela experiência da perda.

Felizmente, minha segunda tentativa deu certo! Engravidei e, depois de nove meses, o Lucas chegou para a nossa família trazendo muita alegria. Mais tarde, ainda com o desejo de ter mais um filho e mesmo depois de todas as dificuldades e a idade avançada – eu estava com 41 anos –, procurei novamente meu obstetra e, com o total o apoio dele, hoje sou mãe do Rafael, da Ingred, do Lucas e da Clara”.

O depoimento de Flávia mostra que o aborto espontâneo é um problema comum em mulheres, atingindo até 30% das gestações. Os números, entretanto, não são fiéis. “Muitas mulheres abortam antes mesmo de descobrir que estão grávidas”, revela o ginecologista Gustavo Ventura Oliveira.

Rodrigo Lima, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, explica que o aborto acontece com maior frequência no início da gestação, fato afirmado pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, que estatisticamente comprovou que 80% dos abortos ocorrem ainda no primeiro trimestre da gravidez.

“Muitas vezes, a mulher sequer descobriu que está grávida e já perdeu o bebê, pois nesse estágio o aborto pode ser confundido com um sangramento entre os períodos menstruais ou mesmo com a menstruação”, esclarece Rodrigo.

Mas há casos de abortamentos que se apresentam com sangramento genital de maior fluxo acompanhado de um material sólido junto aos coágulos e quase sempre com fortes dores abdominais.

A percepção do aborto depende de cada caso e do fluxo menstrual de cada mulher. Para ter certeza, o médico poderá fazer o diagnóstico por meio de exame físico ou com o auxílio de exames de imagem, como a ultrassonografia.

Para compreender as causas

A Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia aponta que as causas estão fortemente relacionadas a dois fatores. Um deles é a idade da mulher que, após os 40 anos, possuem duas vezes mais chance de perda em comparação às que tinha aos 20 anos.  

Isso acontece porque, após os 40, a mulher está mais suscetível à má-formação fetal, como também miomas uterinos, deficiência hormonal e doenças sistêmicas, entre elas a diabetes e os problemas na tireoide.

O segundo fator são os antecedentes obstétricos: mulheres que já sofreram abortos prévios têm até 30% de chances de apresentar uma nova perda. “Aquelas que também são tabagistas ou portadoras de doenças imunossupressoras, como o lúpus, apresentam mais chances de abortar”, revela o ginecologista Gustavo.

Mas é preciso manter a calma e a serenidade, uma vez que mesmo quem já teve um aborto espontâneo pode engravidar novamente. A maior preocupação dos médicos, segundo observa Gustavo, é quando a segunda perda ocorre de forma consecutiva, pois pode indicar que a mulher está evoluindo para um quadro de abortamento por repetição (histórico de três abortamentos consecutivos).

Entre 1% a 5% da população de grávidas sofrem com essa situação. “Nesses casos, o médico deve investigar a causa, a fim de tratá-la e minimizar a sua ocorrência”, revela o Edilson Ogeda, coordenador da ginecologia, obstetrícia e perinatologia do Hospital Samaritano de São Paulo.

Infelizmente, a grande maioria dos abortos espontâneos não podem ser evitados, não importando se é o primeiro, o segundo ou o terceiro caso. Além disso, menos da metade dos casos tem causa detectável, sendo que as anomalias cromossômicas são as mais frequentemente detectadas – cerca de 70% dentro da média detectável.

“Apenas alguns casos de abortamento habitual têm sua causa identificada, mas ainda assim o tratamento não necessariamente diminui a possibilidade de ocorrer um novo abortamento”, explica Rodrigo.

Como o tratamento depende de cada caso, o mais importante é já no primeiro aborto procurar um ginecologista, para que ele investigue as causas e previna novas perdas.

Hoje em dia já existem medicamentos que agem facilitando o fluxo sanguíneo para a placenta e outros que mantêm a taxa hormonal satisfatória. O avanço na medicina está tão grande que até as portadoras da Síndrome da Incompetência Istmo Cervical (mulheres que não têm a capacidade de manter o colo uterino fechado) podem ser tratadas para evitar o aborto se submetendo a um fechamento cirúrgico do colo uterino.

Aborto

Como superar?

O grande problema do aborto, muitas vezes, não é conseguir ter filhos novamente, mas sim fazer com que a futura mãe supere o trauma e consiga ter a próxima gravidez com saúde. A psicopedagoga e psicoterapeuta infantil Monica Pessanha explica que sofrer um aborto pode ser uma experiência muito traumática.

“O aborto pode ser emocionalmente desgastante tanto para a mãe quanto para os demais familiares. Se o corpo da mulher pode cicatrizar-se e recuperar-se de forma relativamente rápida de um aborto espontâneo, emocionalmente, o processo de cicatrização pode levar muito mais tempo”, afirma.

Embora muitas mulheres não queiram lidar com os próprios sentimentos após uma perda de gravidez, encarar a situação de frente pode ajudá-la a sobreviver e se tornar uma pessoa mais forte. Como acontece com qualquer perda, é normal que os casais sofram muito depois de um aborto espontâneo.

“Infelizmente, com frequência, a mulher tenta reprimir a tristeza e parecer emocionalmente forte, mas é importante ter em mente que o luto após uma perda significativa é uma emoção humana perfeitamente normal”, esclarece a psicopedagoga.

Não há limite para o luto, pois se trata de um processo normal que inclui mudanças de emoções, tais como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. “Passar pelo luto após a perda de um bebê não é necessariamente uma depressão e, embora possa haver alguma sobreposição, não deve ser tratado como tal. Até porque esse sofrimento pode variar de mãe para mãe e não guarda nenhuma relação com o tempo de gestação”, pontua Monica.

A especialista ainda relata que muitas mulheres que perdem seus bebês podem sentir medo de perder tudo: família, amigos, trabalho. “Essa fragilidade também é normal e deve ser respeitada. É claro que quando a situação for muito preocupante, é necessário buscar ajuda”, diz.

Saindo da dificuldade

Algumas dicas podem ajudar a superar o sofrimento de quem passou pela experiência de um aborto espontâneo. Se esse é seu caso...

  • Dê a si mesma permissão de sofrer essa perda. O luto é uma resposta normal ao aborto.
  • Se for casada ou tiver um parceiro, é importante que o casal passe por essa experiência junto. O homem não expressa suas emoções da mesma maneira que a mulher o faz, mas manter o canal de comunicação aberto para a expressão de sentimentos pode ajudar no apoio mútuo.
  • Mantenha uma programação com ações simples em sua rotina. É importante, por exemplo, visitar familiares ou amigos pelo menos uma vez por semana, principalmente se já tinha esse costume antes.
  • Pode ser que você passe a ter problemas para dormir. Se isso acontecer, vale a pena consultar um médico.
  • Coma de forma saudável. Uma dieta bem equilibrada irá ajudá-la não só a lidar com as emoções, mas também no processo de cicatrização do corpo.
  • Tire uma folga do trabalho. Mesmo se estiver se sentindo fisicamente bem, alguns dias de descanso podem ser úteis. Você precisa de tempo para processar o que aconteceu e passar algum momento fora da sua rotina normal vai ajudá-la a enfrentar a situação de maneira mais tranquila.
  • Caso já tenha outros filhos, poderá sentir certa relutância em demonstrar seus sentimentos. Apesar disso, tranquilize seus pequenos, deixando claro que a perda não é culpa deles, pois isso é algo que pode ocorrer às crianças.
  • Mantenha a rotina da casa o mais normal possível e informe às crianças sobre o que está acontecendo para que não se sintam confusas. Se, nesse processo, um dos pais ou ambos escolherem demonstrar as emoções que advêm do luto, como choro e tristeza, não se preocupe, pois os pequenos precisam aprender que é normal as pessoas sentirem-se tristes de vez em quando.
  • Preste atenção quando os filhos quiserem compartilhar seus sentimentos, seja por meio de conversas, desenhos ou jogos. As crianças precisam sentir que são ouvidas.
  • Compartilhe e compare experiências com outras mulheres que passaram pelo mesmo desafio. Isso pode ser extremamente reconfortante. Você pode se surpreender ao descobrir quantas pessoas já sofreram um aborto espontâneo.
  • Participe de um grupo de apoio, pois isso também pode ajudar. Se os seus sentimentos começarem a interferir no seu dia a dia ou se a sua tristeza não diminuir depois de alguns meses, fale com o seu médico e, se desejar, procure um terapeuta.

 

(Fotos: Getty Images)