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“Porque sim” é resposta?

Verdade seja dita: dizer o famoso “porque sim”, às vezes, é a melhor saída para resolver determinadas situações

“Porque sim” é resposta?

Já nos primeiros meses de vida as crianças analisam o ambiente com curiosidade para entender quem são e o mundo ao redor. A partir dos 2 anos de idade, começam a querer saber mais sobre as observações diárias: “por que o céu é azul?”, “por que preciso comer tudo?”, “como nascem os bebês?”, “mãe, por que você não tem pipi?” Xiiii, está aberta a temida fase dos porquês! Nessas horas, um “porque sim” pode ser uma resposta paleativa, mas necessária.

De acordo com a psicanalista Hellen Mourão, as crianças começam a formular perguntas com mais ou menos 2 anos. Por volta dos 3 ou 4 anos, essas questões ganham complexidade, deixando muitos pais de cabelos em pé.

“A criança, que até então se sentia participante do meio, começa a se perceber como indivíduo e precisa compreender o mundo exterior para construir sua identidade”, explica. A partir daí, os pequenos questionam os pais incansavelmente, muitas vezes emendando um porquê atrás do outro.

O quadro “ Por quê?” do programa Castelo Rá-Tim-Bum, exibido na década de 90 na TV Cultura, ilustra bem essa fase: o personagem Zeca (Freddy Allan), ao não compreender uma situação cotidiana, dispara uma sequência de “porquês” até alguém perder a paciência e dizer “porque sim, Zequinha!”.

Mas logo surgia Telekid, interpretado por Marcelo Tas, para lembrar que “porque sim não é resposta” e explicar detalhadamente as mais variadas curiosidades do garoto.

No entanto, diante da imprevisibilidade dos questionamentos dos pequenos, é inevitável responder “porque sim” ou “porque não” vez ou outra. Afinal, infelizmente não é possível solicitar as explicações do Telekid e, muitas vezes, o momento não é ideal para os devidos esclarecimentos.

“Quem é pai ou mãe sabe que em algumas ocasiões o ‘porque sim’ é a melhor resposta. A criança precisa entender que existe hora e lugar para perguntar. Mas é importante retomar o assunto assim que possível e explicar os porquês para não deixar uma lacuna”, alerta Hellen.

Apesar de evitar ao máximo, a empresária Ayla Meireles não escapa do “porque sim” ao lidar com alguns questionamentos da filha Catarina, hoje com 5 anos.

“A Catarina sempre procura fazer amizades. Certa vez ela tentou puxar papo com um menino que estava sozinho, mas a mãe me alertou que ele era autista e não recebia bem esse tipo de abordagem. Como estávamos em um ambiente cheio de crianças, pedi para que ela procurasse outro amiguinho pois ele não queria brincar”, lembra-se.

Foi quando a pequena questionou a mãe e insistiu que não deixaria o menino sozinho. “Não teve jeito: tive que falar que não ia brincar com ele e ponto final. Quando chegamos em casa, Catarina até já tinha esquecido, mas expliquei o que tinha acontecido”, conta.

Mantendo a opinião

As crianças, muitas vezes, desafiam e testam os limites – e o enfrentamento geralmente se intensifica com o passar dos anos e com a chegada da adolescência.

“Diante do confronto, os pais não devem mudar de opinião para que não se estabeleça o hábito de desafiar para conseguir o que quer. É importante dar espaço e ouvir o outro lado para mostrar que você respeita a individualidade do seu filho. No entanto, pontue os motivos: não é seguro, não faz bem para a saúde etc”, sugere a psicanalista. Evite respostas como “porque eu estou mandando”.

A psicóloga Ana Paula Díscola ressalta que os pais são os principais exemplos dos filhos e suas atitudes podem ter um impacto positivo ou negativo na formação da personalidade e identidade social da criança.

Necessário, mas não todo o tempo

O uso frequente do “porque sim” como resposta, por exemplo, pode acabar com o hábito de perguntar, tão importante no processo de aprendizado. “Se a criança é travada por quem mais confia, ela pode se sentir desvalorizada e até perder a vontade de descobrir coisas novas”, diz a especialista.

A constância de respostas “porque sim” também pode fazer com que o pequeno pare de perguntar para os pais e busque as respostas na escola ou com outros parentes – o que, provavelmente, os pais não desejam.

“Na ausência de uma explicação convincente, a criança também pode usar a imaginação e a fantasia para completar a lacuna e tirar conclusões incorretas”, alerta a psicóloga. 

As perguntas são uma ótima oportunidade para conversar sobre os mais diversos temas e descobrir o que a criança pensa e já conhece sobre o assunto. Mas, muitas vezes, as dúvidas são cabeludas e os pais não sabem o que responder ou mesmo ficam constrangidos. Para piorar, os pequenos são mais espertos do que pensamos e sentem a insegurança no ar.

Evite rodeios e seja honesta para não criar medos e angústias. “Se você não sabe, explique que ainda tem muito a aprender e que vai se informar antes de responder. E se você acredita que o assunto não é compatível com a maturidade da criança, replique a pergunta para ver o que ela já sabe e procure explicar da forma mais simples possível”, sugere Ana Paula.

Vale também pedir auxílio para alguém de fora, como professores, psicólogos ou parentes. O essencial é que o pequeno perceba que você se importa e está envolvida nesse processo de descobertas e adaptação ao mundo que nos cerca.

(Foto: Getty Images)