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Você sabia que 1 em cada 4 mulheres sofre de depressão pós-parto no Brasil ?

Um estudo da FioCruz mostrou que o índice de mulheres com sintomas é de 26,3%, mas o mal pode ser prevenido com um pré-natal multidisciplinar e o olhar atento de amigos e familiares

Você sabia que 1 em cada 4 mulheres sofre de depressão pós-parto no Brasil ?

“Meu filho nasceu e eu estava triste, exausta, ele só chorava e minha cabeça até doía, eu só chorava. Achava que ia passar, mas não passava. Meu marido dizia que era frescura. O pediatra do meu filho que percebeu que eu precisava de ajuda. Foi aí que descobri que estava deprimida”, conta Alessandra*, que hoje conseguiu superar a doença e está em sua segunda gravidez.

Essa história teve um desfecho feliz, mas muitas mulheres relatam que se arrependem de terem se tornado mães e que nunca mais serão felizes por conta disso. Como é algo de difícil compreensão para a sociedade em si, já que é quase uma obrigação para a mulher se sentir feliz em estar grávida ou com um recém-nascido no colo, muitas delas se sentem excluídas, não sabem como pedir ajuda e tentam conviver com esse sofrimento e culpa.

“O primeiro passo é a sociedade parar imediatamente com as pressões que exercem sobre a maternidade, e passar a dar mais colo e atenção às mães. Compreensão, ajuda e apoio emocional são pontos importantes nesse momento”, desabafa Alessandra*.

Segundo a psicóloga Fernanda Terenzi, especialista no atendimento a gestantes e seus familiares, a gravidez pode ser considerada um momento de crise, e não só de vivências positivas.

“Mudanças físicas, mudanças de papéis, mudanças no relacionamento do casal estão acontecendo nessa fase e essas vivências podem gerar ansiedade e confusão de sentimentos”, explica a ginecologista obstetra e mastologista, Livia Daia, da clínica Daia Venturieri.

Alguns estudos apontam fatores de risco que significam uma possibilidade maior de depressão pós-parto nas mulheres. Entre eles: gestante solteira, gestação não planejada, conflitos conjugais durante (ou antes) da gravidez, histórico familiar ou pessoal de depressão, frágil suporte social e emocional.

Mas o importante é saber que a depressão pós-parto pode, em partes, ser prevenida. A equipe que está acompanhando a gestante, a família e os amigos são os mais indicados para identificar algum fator de risco ou emocional que esteja gerando sofrimento para a mulher e sugerir uma avaliação com profissional adequado.

Por isso é essencial uma boa relação médico-paciente e o ideal seria um pré-natal realizado com uma equipe multidisciplinar, incluindo um pré-natal psicológico. “A realidade nos mostra alguns médicos pouco atentos às pacientes e também mulheres que relutam muito em buscar um atendimento psicológico e refletir sobre seus sentimentos durante a gestação”, diz a psicóloga.

O puerpério

No puerpério a mãe se depara com a maternidade, o bebê e o parto real e isso se confronta com a maternidade, o bebê e o parto imaginado e idealizado. Esse confronto pode gerar medo, tristeza, dentre outros sentimentos. Além disso, há o cansaço físico de noites mal dormidas e a adaptação às demandas do bebê e da amamentação. 

A psicóloga Fernanda Terenzi explica que nessa fase pode ocorrer o Baby Blues ou Blues Puerperal, que seria essa confusão de sentimentos, uma tristeza transitória, que aparece alguns dias após o parto. Já a depressão pós-parto costuma perdurar, mais de 45 dias após o parto, e tem sintomas como retraimento social, sentimentos de solidão e incompetência, choro constante, alterações no apetite e no sono.

Segundo Livia Daia, para definir o diagnóstico de depressão pós-parto é necessário o cumprimento de critérios de escalas de avaliação pré-definidas, como o Edinburgh postnatal depression scale (EPDS) e o Post-partum Depression Screening Scale (PDSS). “Essas duas escalas são exemplos que são utilizados pelos médicos para auxiliar no diagnóstico”, explica a obstetra.

“O tratamento depende de caso para caso, mas normalmente é medicamentoso combinado com psicoterapia. Existem alguns medicamentos que podem ser receitados por psiquiatras e que não interferem na amamentação”, diz a psicóloga.

Vínculo entre mãe e bebê e a importância do companheiro ou companheira

A depressão pós-parto pode trazer prejuízos para o vínculo entre mãe e bebê no presente e consequentemente no futuro, se ela não for detectada e tratada a tempo. Os primeiros meses são de suma importância para a constituição psíquica do ser humano. O bebê nasce em um estado de dependência absoluta e suas necessidades precisam ser prontamente atendidas.

“O papel do companheiro é essencial em todo o puerpério, pois é ele que deverá zelar e cuidar da mãe para que ela consiga tomar conta do bebê. Esse papel pode ser exercido por qualquer pessoa de confiança da mãe”, afirma Fernanda Terenzi.

Se a mãe está doente e não consegue atender as necessidades do bebê, isso pode gerar prejuízo. Por isso é muito importante que o companheiro ou outra pessoa atenda as necessidades do bebê enquanto a mãe está sendo tratada e se recuperando. “O vínculo entre mãe e bebê pode ser preservado e estimulado se outra pessoa ajudar. A mãe não precisa se sentir culpada por estar passando por isso, mas buscar uma rede de apoio e tratamento”, destaca a psicóloga.

É importante ressaltar que pode ser que a mãe não consiga amamentar e isso pode gerar mais um fator desencadeante de culpa e de sentimentos de incapacidade. “Diante de uma depressão pós- parto precisamos pensar em manter a saúde emocional do bebê e da mãe e, muitas vezes, a introdução de leite em fórmula, se for o caso, não deverá ser encarada como algo catastrófico. O vínculo pode ser construído de outras maneiras e a tempo. Se a mãe não está bem o bebê também não estará. É importante cuidar de ambos”, ressalta Fernanda.

*A pedido, o nome da entrevistada foi modificado para preservar sua identidade.

(Foto: Getty Images)