Educação e Desenvolvimento

O que NÃO fazer quando o filho vai mal na escola

Castigar ou brigar com a criança sem antes descobrir as razões do mau rendimento e não mostrar os benefícios de aprender são alguns dos erros mais comuns

O que NÃO fazer quando o filho vai mal na escola

Com o fim do primeiro semestre, já é possível ter uma boa noção de como vai o desempenho escolar de seu filho. Não é dos melhores e você está com medo de ter uma péssima surpresa no fim do ano? Muita calma nessa hora! Ainda há tempo suficiente de corrigir a rota.

Porém, mais importante do que avaliar o que vale a pena fazer para ajudá-lo é ter em mente quais atitudes você deve evitar. Muitos pais aproveitam as férias de junho para punir as notas ruins dos filhos, privando-os de passeios ou tirando os brinquedos favoritos.

Segundo especialistas, porém, certos castigos não são lá muito úteis. “Alguns não ajudam a construir nada, apenas punem por punir”, diz a terapeuta familiar e psicopedagoga Quezia Bombonatto, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp).

Quezia alerta ainda que é não é raro os pais ficarem assustados com o rendimento ruim dos filhos porque simplesmente são negligentes com sua vida escolar. “Se os pais vêm acompanhando a educação do filho, eles têm condições de saber se está indo bem ou não. O principal erro é não ter acompanhado e esperar o resultado para tomar uma atitude”, avisa.

Veja, a seguir, uma lista com outros erros para evitar quando a criança tem dificuldades na escola:

1. Não procurar a escola para identificar a origem do problema

De acordo com Quezia, vários motivos surgem por trás das notas baixas. A criança pode, por exemplo, estar interessada em outras coisas, como o convívio social, e não estar compromissada com a aprendizagem.

“Ela também pode estar sendo exigida demais, então se sente pressionada e não consegue dar conta. Ou tem uma dificuldade de compreensão, de atenção ou outro problema cognitivo”, explica. Bullying, dificuldade de interação com colegas e professores e até mesmo o fato de a escola ser inadequada são outras razões.

2. Querer que o filho se tranque no quarto para estudar

Essa é uma prática antiga e ultrapassada. A maneira de estudar hoje é bem diferente da época da maioria dos pais contemporâneos. De acordo com Susana Orio, psicóloga do Colégio Madre Alix, de São Paulo (SP), em métodos mais tradicionais, décadas atrás, as pessoas decoravam as coisas e, depois, esqueciam. Nem sempre uma nota boa numa prova, portanto, significava conhecimento adquirido.

“Hoje, com a internet e a globalização, tudo muda muito rápido, inclusive o conhecimento. Por isso é importante aprender a aprender, porque o conhecimento vai mudando. Desde que a criança entra na escola até o momento que sai, muitas coisas mudarão. Uma forma lidar com isso é aceitar que só se aprende errando e não ficar preso ao ‘decorar’. O aprendizado tem que ser significativo. Todo o conhecimento que a escola, os pais e o meio proporcionam devem fazer um elo com o que a criança já sabe”, informa Susana.

Assim, não vale só enfiar o nariz nos livros escolares. É possível aprender lendo outros tipos de publicações, assistindo documentários, vendo vídeos no YouTube etc.

3. Não servir como modelo

Pais que não lêem ou não se interessam em aprimorar o conhecimento e a bagagem cultural dificilmente terão filhos animados com os estudos. O cérebro infantil aprende tudo o que vê ao redor. Modelos, portanto, são muito importantes.

Se os pais lêem, estudam, falam sobre notícias e estimulam a criança a participar de conversas e a pensar, criarão bons hábitos e, além de excelentes vocabulários, pessoas curiosas e interessantes. “Isso reflete diretamente no aprendizado escolar”, conta Irene Maluf, especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem.

4. Não mostrar o valor prático do conhecimento

“Pais comprometidos, que estão cientes da falta de motivação e das dificuldades dos filhos, devem orientá-los e apontar os ganhos que eles têm ao gostarem de aprender, não só do ponto de vista material. É importante mostrar a gratificação que o aprendizado traz”, diz Quezia.

A professora de educação física e coach Cássia Gislene dos Santos Vasquez Langer, 45 anos, sabe muito bem como colocar esse fundamento em prática. Mãe de Ivo, de 8 anos, ela sempre o incentiva a estudar conversando sobre os desejos que ele tem para o futuro.

“Vou perguntando o que acha que deve fazer para realizá-los. Nas respostas que me dá, ele mesmo acaba chegando à conclusão de que precisa estudar. Quando desanima, volto a lembrá-lo de tudo o que fala que quer ser e fazer no futuro e acabo dando exemplos práticos de como vai usar as coisas que está aprendendo na escola. É muito legal, ele se anima na hora. Percebo que começa a sonhar com o futuro e aí vai!”, relata.

5. Não ter paciência para estudar junto

Não basta sentar ao lado do filho, acompanhar as tarefas e apontar erros e acertos. Para animar uma criança a estudar, é preciso ajudá-la de maneira menos burocrática. Mãe de Cecilia, 11 anos, e Betina, 8, a escritora e contadora de histórias Karin Krogh sempre inova na hora da lição de casa e do preparo para as provas.

“Eu interpreto o texto como se tivesse contando uma história para elas. Fico em pé, vou contando e elas acabam participando, finalizando a história, lembrando de coisas que ouviram da professora”, diz.

“Acho ótimo, porque também aprendo um monte de coisas. Curto dividir com elas o prazer do estudo. A minha mais velha é muito parecida comigo, cabeça nas nuvens, se distrai facilmente desde pequena, então acho fundamental a minha participação. Sentia falta disso na minha época de escola”, confessa Karin.

6. Não conversar sobre o motivo do mau desempenho

Como Quezia já pontuou, dialogar com a escola é essencial para descobrir o que levou às más notas. Porém, falar abertamente com o filho – e, sobretudo, ouvi-lo – também merece atenção. Só assim você vai entender a razão de uma possível falta de motivação ou a dificuldade de entendimento em determinado tópico ou assunto.

Se a criança foi mal em certa matéria, por exemplo, por não se identificar com ela, é necessário refletir sobre como tornar o aprendizado mais interessante. Se ela conversa muito na escola e deixou de anotar certas informações, todo um trabalho sobre foco e prioridades devem ser organizado.

A primeira coisa que se erra é arbitrar qualquer ação sem antes saber a razão. Jamais tome nenhuma atitude sem antes saber os motivos que levaram ao fracasso.

7. Negligenciar momentos de lazer e cultura

Mesmo para crianças mais velhas, é importante oferecer a oportunidade de vivenciar experiências de lazer e cultura em família. “O conhecimento tem que ser contextualizado em relação à época que a criança e os pais estão vivendo. Além disso, o lazer propicia desenvolvimento motor e dá autonomia para a criança”, avisa Susana Orio.

Então, que tal oferecer atividades culturais, sentar com a criança e ler um livro, motivar aquilo em que ela tem interesse? “Mas, para bons resultados, os pais precisam acompanhar de fato. Isso não deve ser terceirizado”, diz a psicóloga.

8. Rotular o filho

Jamais, sob hipótese alguma, chame seu filho de burro, incapaz, fracassado, incompetente ou outras palavras do tipo. As crianças tendem a se apropriar dos rótulos e a incorporá-los, muitas vezes por toda a vida. Se quer motivá-lo, diga que ele vai conseguir superar as dificuldades que têm ao seu lado.

Outro erro grave é comparar o desempenho da criança com a dos irmãos, amigos ou até mesmo com os dos pais, na época em que tinham a mesma idade. “A mensagem que fica é que não importa o que ele faça, ele nunca será tão bom quanto os outros”, ressalta Quezia.

(Foto: Getty Images)