Educação e Desenvolvimento

Precisamos deixar nossos filhos crescerem

Por Nívea Salgado
@Mildicasdemae

Que seu filho sabe mais do que você na mesma idade, eu já sei. Mas será que ele está preparado para enfrentar o mundo?

Precisamos deixar nossos filhos crescerem

Outro dia estava conversando com a mãe de um menino de 14 anos. Gosto de falar com mães que já estão mais “avançadas" no processo da maternidade - é como se elas já tivessem conseguido passar pelas fases do jogo de videogame e tivessem várias dicas para me passar. Dessa forma, consigo também vislumbrar alguns problemas que vão aparecer lá na frente, mas que tiveram sua causa anos antes. Se for possível fazer algo para evitá-los, esses papos são ótimas oportunidades!

Sabem que essa conversa foi muito esclarecedora para mim?

Essa mãe me contava que seu filho já falava três idiomas, além do português, que tirava excelentes notas em matemática, e que era um dos melhores em xadrez da sua escola. “Nossa, que ótimo!”, disse eu. E então ela me respondeu: “sim, muito bom mesmo. Ele tem um desempenho escolar incrível. Mas tem a maturidade de uma criança de dez anos. Na idade dele, eu estava muito mais preparada para o mundo, e isso me preocupa”.

Essa mãe me contou que seu filho nunca tinha tomado um ônibus sozinho (confesso que, com 14 anos, eu já voltava para a casa da escola sozinha todos os dias). Não sabia se virar no próprio bairro, pois só saía com um adulto sempre. Sabia abrir uma embalagem de iogurte, mas nunca tinha cozinhado um macarrão para matar a fome (nunca tinha precisado, é claro). E se perdia algum objeto pessoal, achava mais fácil ligar para a mãe para saber onde estava do que procurar por dez minutos.

Essa mãe estava chegando a conclusão de que seu filho tinha muita informação sobre o mundo, mas muito pouca experiência de como se virar. Tinha a impressão de que as coisas se resolviam de forma imediata e fácil, como uma pipoca que estoura em três minutos no microondas. E, finalmente, essa mãe se perguntava: “será que estou preparando meu filho para a vida pós-faculdade? Em que um bom emprego - ainda mais em nosso país - não cai do céu em uma semana?

Fiquei pensando se, sem querer, eu não estaria fazendo a mesma coisa com minha filha de apenas 6 anos. Entregando seu café da manhã pronto, como forma de carinho, ao invés de deixá-la cortar o pão e usar a faca para passar a manteiga. Deixando-a na bolha da vida urbana dentro do carro, ao invés de levá-la para passear frequentemente de ônibus (temos dois corredores ao lado de casa, e possivelmente chegaríamos mais rápido a muitos lugares, do que usando meu automóvel) ou de metrô.

Enfim, deixo aqui essa reflexão, porque acredito que um filho só se torna maduro se dermos espaço para que ele amadureça. Se tirarmos um pouco da comodidade, e deixarmos que ele “rale" um pouquinho para conseguir o que deseja. Porque lá na frente a vida não é fácil, não. Certamente seu chefe não chegará todos os dias oferecendo um pão de queijo quentinho, não é?

(Foto: 123RF)