Família

A delícia que é ter um irmão

Por Patrícia Cerqueira
@Comida Boa Muda Tudo

Partilhar, compartilhar, socializar, ter com quem brigar e disputar, além de rir e ter segredos, são só alguns itens

A delícia que é ter um irmão

Acho que já contei por aqui sobre o "susto" que tivemos (eu e marido) com a rotina desgastante quando nosso primeiro filho nasceu. Pensando melhor, acho que estou sendo injusta. A rotina desgastante que tínhamos por conta do trabalho que foi multiplicada por 2, com a chegada do bebê. É isso!

Ficamos tão cansados com as noites mal dormidas que, apesar do desejo de ter um segundo filho, a falta de ânimo com a demanda exigida pelos cuidados de um recém-nascido era maior. Sabíamos o que vinha pela frente e não estávamos dispostos a encarar a jornada mais uma vez.

Uma amiga querida foi quem me alertou para o fato de eu estar sendo egoísta (sim, isso era verdade) e injusta (isso também era verdade) com nosso filho, ao privá-lo de ter uma das melhores companhias do mundo, que é um irmão (ou irmã), por preguiça de acordar de madrugada durante um tempo curto da minha vida.

Eu poderia não querer um segundo filho por questões financeiras, por exemplo. Mas, por preguiça, era uma tremenda sacanagem com nosso filho. Porque ter irmão ou irmã é uma delícia!

Com eles, aprendemos a compartilhar, a dividir, disputar, rir, brigar o tempo inteiro...

Alguém pode argumentar que com os amigos também se pode fazer tudo isso. Ok, concordo. Mas não o tempo inteiro, todos os dias, 24 horas x 7 dias x 365 dias no ano.

E o mais importante: só com irmã ou irmão a gente aprende a compartilhar (e disputar) o amor dos pais e formar um núcleo separado deles. Um núcleo fraterno com códigos próprios.

Com a irmã ou o irmão, aprendemos as coisas "menos formais", as traquinagens, as "artes", como se comportar na escola, no play do prédio, na rua.

O irmão mais velho é a pessoa que mais desejamos ser quando crescermos, porque ele é menor que os pais e mais legal, porque chama para brincar. E a brincadeira é a escola da vida da criança.

O irmão e irmã brincam de super-herói, de casinha, de viajar para a Lua. Brincam de ser Power Rangers, Elsa e Anna. Falam de boca cheia e tomam banho na mesma banheira, assitem a filmes dentro da barraca improvisada.

Os mais velhos se sentem responsáveis pelos menores, apesar de não terem essa obrigação. Mas o sentimento de "cuidar" é mais forte, tanto que prevalece.

Com irmãs e irmãos contamos segredos, falamos bobagens, brigamos porque somos quase da mesma idade, da mesma altura.

Eles nos entendem com mais rapidez do que os adultos. Os irmãos, quando a distância de idade não é muito grande, vivem praticamente no mesmo tempo de desenvolvimento infantil.

Eu tenho o privilégio de viver todos esses anos com a minha irmã, Elaine, de quem tenho orgulho e admiração e com quem aprendi a jogar bola, a fazer bola de chiclete, mergulhar na piscina, atravessar onda sem medo.

Não me perdoaria por privar Samuel de ter essa experiência rica por preguiça.

Jamais esquecerei a angústia do Samuel de querer levar logo o irmão para casa. Não entendia porque Miguel tinha de ficar "tanto tempo" (3 dias) no hospital.

Desde que chegamos com Miguel em casa, Samuel jamais manifestou o desejo de devolver o irmão para a maternidade.

Miguel, por sua vez, nunca admitiu ter "dia de filho único". Diz que essa história de "filho único é como se Samuel tivesse morrido" e sofre para dormir quando o irmão mais velho passa a noite fora. "Fico com medo de fantasma e monstros toda noite, mas durmo tranquilo porque o Samuel está do meu lado, pertinho. Com ele no quarto, me sinto seguro", revela.

Não importa se os irmãos são de sangue ou adotados, o que se desenvolve nessa relação é a fraternidade.

Beijos,
Patricia

(Fotos: Arquivo pessoal)