Família

Fim de ano em família – e sem saias-justas

Como lidar com os momentos tensos que as comemorações podem trazer

Fim de ano em família – e sem saias-justas

Quando chega o fim do ano, toda aquela correria em busca da decoração natalina perfeita, dos itens mais deliciosos para a ceia e dos presentes tem um grande objetivo: reunir as pessoas queridas e celebrar.

Como reza a tradição, na maioria das vezes, a reunião é em família. No Natal ou no Réveillon, muita gente não dispensa a oportunidade de encontrar pais, irmãos, primos, tios, avós, todos em torno de uma mesa farta e de troca de presentes, com sentimentos aflorados e expectativas sobre o novo ciclo que vai começar.

Mas para algumas pessoas, toda essa sensibilidade, somada aos encontros familiares, não é exatamente sinônimo de alegria – pelo contrário, é uma época em que algumas angústias se intensificam.

Especialmente quem cresceu em família numerosa sabe que as grandes ocasiões também podem ser um campo minado para o surgimento de encrenquinhas, saias-justas, sem contar desentendimentos mais sérios e até “barracos” (e atire a primeira pedra quem não tiver uma história dessas pra contar!).

Tais situações, é claro, não necessariamente deixam boas lembranças em quem as viveu: há quem sinta calafrios só de pensar em ceia.

“Certa vez, no meio de uma festa – e minha família é enorme! – veio à tona que dois dos tios mais novos haviam casado sob o regime de comunhão universal de bens, e com mulheres que eram irmãs. Isso gerou uma briga imensa, pois esse regime nunca foi ‘tradição’ nos casamentos da família, além de um rompimento de relações que durou dois anos”, conta a arquiteta K.I.T.S*.

“Com o tempo passei a notar também que as pessoas mais briguentas da família são aquelas que queriam organizar a festa toda, o amigo secreto, a definição dos pratos, etc. Se intrometem, gostam de palco, de se mostrarem presentes. E esse é um comportamento que acaba fazendo todo mundo pisar em ovos a festa toda”, avalia.  

Obviamente, como família é coisa séria, evitar de ir à festa ou ceder à vontade de “sair correndo” talvez não seja a melhor saída.

Uma das entrevistadas para esta matéria relatou, por exemplo, que anos atrás as brigas eram tão previsíveis que só de pensar no Natal ela sentia calafrios e ânsia, sensações que a acompanharam por longos anos, mesmo quando sabia que não iria encontrar a mãe, que antes insistia em criticá-la e compará-la aos outros irmãos.

“Uma opção é pensar em estratégias para que constrangimentos piores sejam evitados”, recomenda a psicóloga Camila Freitas Teodoro, para quem os atritos são necessários, pois permitem que as pessoas aprendam a conviver com as outras, inclusive com suas diferenças.

No entanto, a psicóloga chama atenção para casos carregados de negatividade e que acabam por desencadear até sintomas físicos. “Nessa situação, é necessário procurar também o motivo que desencadeou o sofrimento, buscar o que de fato trouxe o mal-estar e ajuda para solucionar o problema”, orienta.

Mas como as festas já estão chegando, ela indica como alternativa mais rápida se planejar para apenas “dar aquela passadinha”, garantindo um Natal com um pouco mais de alívio e leveza.

No ano que vem...

Encontrar maneiras de aliviar o clima, seja pelo menos para você ou coletivamente, é algo a se considerar com seriedade. Depois de anos a fio participando de festas na presença de um tio “barraqueiro ao extremo”, a assessora de comunicação Cristiane Rangel encontrou no silêncio e na saída de fininho uma alternativa para evitar qualquer tipo de saia-justa.

“Sempre agi assim, deixando com que ele discutisse e argumentasse sozinho. Hoje as coisas estão mais calmas, e na própria família impera um acordo para que os finais de ano, que sempre são vividos com meus pais, filha, irmãos, cunhados e sobrinhos, ocorram sem encrencas. Se algo acontece, meu pai logo diz: ‘Epa, hoje é dia de festa! Resolvam isso depois em outra hora e outro lugar”, relata Cristiane.

Na opinião da psicóloga Maria Carolina Rodrigues, a decisão de passar o Natal e o fim de ano com quem a pessoa realmente se sente bem seria a mais sensata.

“As angústias não se resolvem só por ser Natal, ao contrário, às vezes até se intensificam. Infelizmente, nem todas as pessoas estão preparadas para se desprenderem de tais ritos junto a familiares ou pessoas que não fazem, de fato, sentido em sua vida. O importante é comemorar, mas se posicionar é difícil. Assumir não querer fazer parte desse momento mobiliza a culpa, e as pessoas no geral preferem se submeter a ter que tomar uma atitude”, argumenta Maria Carolina.

E embora tomar a tal atitude seja um processo difícil, sempre é possível repensar e se planejar para ter um fim de ano diferente, nem que seja só daqui a 365 dias. E isso também significa realmente se desprender de situações que, mais do que incômodas, realmente fazem mal.

“Se não quer que seu ano seja como o anterior, vá resolver essas questões internas num processo de autoconhecimento. Desprenda-se da aceitação alheia e seja feliz, separe o que é sacrifício e o que é prazer para você. Só assim se consegue, realmente, vivenciar o que chamamos nascimento e ano novo, tão almejados nessa época do ano”, sugere.

* Nome não divulgado a pedido da entrevistada.

(Foto: Getty Images)