Comportamento

Mães, não alisem o cabelo enrolado das crianças!

Por Patrícia Cerqueira
@Comida Boa Muda Tudo

Movimento no Facebook, o #relaxanaomae tenta conscientizar e sensibilizar a sociedade sobre a importância do cabelo crespo

Mães, não alisem o cabelo enrolado das crianças!

Um dos maiores sonhos da minha vida era ser negra e ter cabelo enrolado. Sou branca e tenho cabelo padrão liso-escorrido-lambido-sem graça-sem-personalidade.

Por conta do meu sonho, li com tristeza a história de uma mãe brasileira que recebeu um bilhete da professora da filha dizendo que o cabelo da menina, naturalmente crespo, volumoso, black power lindo (tudo o que eu queria ter na vida), era motivo de piadas entre os colegas e aconselhava um relaxamento. A mãe, claro, ficou indignada.

A professora perdeu a grande oportunidade de ser educadora e trabalhar esse assunto com os alunos, falar das diferenças entre as pessoas, que cada uma é de um jeito. De mostrar os tipos diferentes de cabelo, cor de pele, altura, peso... Que essa diversidade é que transforma o Brasil em um país incrível, que é muito legal ter o cabelo enrolado, cacheado, volumoso com personalidade. Perdeu a chance de ir atrás de fotos de pessoas famosas com fios crespos.

Mas a professora foi medíocre, obtusa e preconceituosa. Um tanto desesperador pensar que, de onde se espera atitudes positivas, surgem ações que dão medo.

Pois essa professora e um bom tanto de gente espalhada pelo mundo ainda acreditam que cabelo "bom" é o liso e que cabelo crespo é "cabelo ruim".

Alguém tem ideia do peso dessas palavras na alma de uma menina ou de um menino de cabelo cacheado?

Como você se sentiria se escutasse da sua mãe, avós, tias, primas, professoras que tem "cabelo ruim"?

A história da menina motivou uma campanha no Facebook, ganhou a hashtag #alisanãomãe e recebeu muitas histórias de gente que tem o maior orgulho dos cachos, além de centenas de fotos de meninas com mães que têm orgulho de sua origem e seus fios anelados.

Ganhou tanta repercussão que até o escritor português José Eduardo Agualusa escreveu um texto sobre o o orgulho que ele tem pelo cabelo da filha dele, Vera Regina. Diz ele:

Não há nada mais lindo do que uma bela cabeleira anelada.

Concordo!!

Meu filho Miguel tem cabelo cacheado. É o único da casa com o cabelo assim. Ele queria ter o cabelo igual ao do irmão, liso, escorrido, lambido, até ficar sabendo da existência de um jogador de futebol brasileiro simpático chamado Davi Luiz. Você o conhece? (rs!). Meu Miguel tem o estilo de cabelo parecido com o do jogador brasileiro.

Ele ficou encantado. Se identificou, se sentiu valorizado. Sentiu que o cabelo anelado é igual ao de uma porção de gente. Ou seja, ele sentiu que era não mais um estranho.

Desde então, meu Miguel nunca mais quis ter o cabelo liso. Dá o maior valor para seus cachos e fica muito feliz quando as pessoas dizem que ele parece um anjo. Abre um sorriso delicioso e orgulhoso.

Se você é mãe, tia, avó, prima ou professora de uma menina ou menino de cabelo anelado, cacheado, crespo, não diga que ela/ele tem um cabelo ruim.

A Dove fez uma pesquisa e descobriu que apenas 4 em cada 10 meninas gostam de seu cabelo cacheado e lançou uma campanha mundial para valorizar isso. Veja aqui o lindo vídeo da campanha e saiba que as meninas têm 7 vezes mais chance de gostar de seus fios encaracolados se as pessoas ao redor delas também gostarem de ter seus próprios cachos.

Então, #alisanãomãe! Nem os seus cachos. Nem os cachos da sua filha.

Beijos,

Patrícia, a invejosa

(Foto: Arquivo Pessoal | Vídeo: Divulgação)