Comportamento

O precioso tempo das amigas

“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores. Mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos”. E não é preciso tamanha sabedoria de poeta para concordar com Vinícius de Moraes

O precioso tempo das amigas

Quem já quilometrou sequer um pouquinho por essa vida louca, sabe que poucas coisas aumentam tanto a qualidade de vida das pessoas quanto amigos. Aqueles vínculos que permitem espontaneidade e proporcionam acolhimento.

Fazem mais convites do que cobranças. Tornam a vida mais leve, mais cheia de possibilidades. E, principalmente, abrem as portas para o autoconhecimento.

“Tais relações funcionam como um recipiente no qual, dia a dia, são depositadas ideias e sensações sobre a vida de cada um. Assim, ampliam-se os olhares lançados à realidade e a si mesmo”, explica o psicólogo Vinícius Fontes.

Livia Teixeira, 26 anos, sabe bem de tudo isso. Ela está oficialmente casada há cerca de 1 ano, mas mora com o marido há 3. E, mesmo com a correria da rotina de uma relações públicas paulistana, as horinhas reservadas para as “meninas” são sagradas.

“Para mim, dividir o tempo entre amigas e família – tanto marido, quanto mãe, pai, avós, tios e primos –, é automático. Eu nem sei como fazer para que não aconteça!”, brinca.

Os dois

Na rotina da Lívia, isso é algo natural. Mas nem sempre as coisas acontecem assim. Muitas vezes, a fragilidade parte da própria dinâmica do casal: tenta excluir qualquer um que não pertença ao núcleo familiar, considera o companheiro(a) a única relação afetiva de intimidade necessária e boicota amizades de um e outro.

Isadora Moura, 33 anos, aprendeu a duras penas o verdadeiro significado da palavra solidão. “Eu já estava casada há cerca de quatro anos e, embora tivesse a companhia do meu marido, me sentia sozinha”, conta.

A enfermeira se envolveu em uma relação autocentrada e, em consequência disso, destrutiva. “No começo, o ciumento era ele. Com o desenrolar, o comportamento possessivo partia de mim também”, desabafa.

Ela distanciou-se das amigas para se dedicar, exclusivamente, ao relacionamento, a fim de evitar discussões intermináveis. “Foram dezenas de sessões terapêuticas para que eu fosse capaz de acabar com aquele sofrimento e retomar as amizades. Mesmo assim, algumas delas não voltaram mais”, lamenta.

Amigas

As multitarefas

De fato, a probabilidade da vida pós-casamento ficar mais agitada e reduzir o tempo para sair com “a turma” é grande. Mesmo assim, esse hábito não deve ser deixado de lado. Celma Rabelo, por exemplo, é casada há 25 anos. Mãe de três filhos, começou um processo de afastamento social a partir da chegada de seu primogênito.

“Fui tomada por uma falsa impressão de que seria impossível conciliar as coisas. A partir da segunda gestação, fiquei extremamente nervosa e deprimida. O que me devolveu os eixos foi a reaproximação com minhas amigas. Para conseguir isso, procurei um grupo de ajuda”, relata.

Celma passou a frequentar o CoDA ou CoDependentes Anônimos, uma reunião que já opera em vários estados brasileiros, formada por pessoas com inabilidade de manter e nutrir relacionamentos saudáveis - com os outros e consigo mesmas. É terapêutico, gratuito e aberto ao público.

O caminho

Conviver é complicado, mesmo. Exige prática para driblar a inveja, o ciúme, a projeção das próprias angústias, a desconfiança e a vulnerabilidade. A boa notícia é que, quanto mais se relaciona com as pessoas, melhor se fica na arte de se relacionar.

“Os amigos são fundamentais nesse processo. Tê-los por perto implica em compreender que, às vezes, calar ou falar podem ser atos de amor, que o outro não é uma extensão dos próprios desejos, que o diferente amplia o olhar, que é possível rir de situações trágicas, que todos têm suas dificuldades e superações, que não é possível se dar bem com todo mundo, que é preciso saber dizer e ouvir ‘sim’ e ‘não’, que o tempo passa, que as coisas mudam e as pessoas entram e saem de nossas vidas, assim como nós das delas”, completa Fontes.

Abaixo, vão algumas dicas de mulheres que não abrem mão desse momento bate-papo de “comadres” por nada! Leia e estimule-se a também garantir o seu.

A saída
“Mesmo que de vez em quando role um jantarzinho com os maridos, a gente continua precisando de um momento clube da Luluzinha - pra falar de moda, reforma, viagens, dilemas pessoais, Facebook, escola, eleições, cartomante, buffet infantil, Michael Bublé... Nossa saída foi migrar a happy hour para a hora do almoço. E colocar no nome do evento a palavra OBRIGATÓRIO - mais pra todo mundo fazer o que for possível para ir!”
Daniella Folloni é administradora de empresas, jornalista, mãe de dois filhos e blogueira do Disney Babble. Leia o post completo em que ela discorre sobre o assunto

Note e anote
“A receita: tenha um marido parceiro, que não tente te prender em casa ou te obrigar a sair com aquela turma de caras que só falam assuntos dos quais você não entende! Em contrapartida, tenha amigas que pensem como você e também topem deixar os maridos em casa de vez em quando - sair com elas e seus respectivos toda vez a tiracolo fica chato!”
Livia Teixeira é relações públicas, tem 26 anos, é casada há 1, mas mora com o marido há 4

Seja franca
“No total, eu e meu marido estamos juntos há 8 anos. Nunca terminamos ou sequer cogitamos a ideia - apesar das crises, brigas e dificuldades. Desde o início, fomos muito francos um com o outro, gostamos da nossa liberdade e torcemos pelo sucesso mútuo. A ideia de estar com alguém só é feliz se somar. Privar-se das coisas que lhe fazem bem vai à contramão desse pensamento”.
Stefanie Gomes Cruz tem 25 anos, é casada há 2 e (ainda!) não tem filhos

Faça acordos
"Nem sempre encontrar o equilíbrio família X amigas é fácil. No entanto, eu e meu marido apostamos no bom senso. Chegar de madrugada todo dia trançando as pernas, por exemplo, não é uma das melhores opções pra relação, né?! Pelo menos, é o que achamos. E tem dado certo! A vida a dois é sempre uma negociação, mas dá pra ser mais leve se cada um respeitar e admirar os interesses e as relações do outro".
Sheila Miranda é jornalista, tem 27 anos, é casada há 7 meses, mas está na relação há 6 anos

(Fotos: Getty Images)

 

 

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