Comportamento

Um calendário de garotas reais

Doze mulheres posaram nuas para um projeto beneficente, que questiona os estereótipos da beleza e como os transmitimos para as nossas filhas. Por que a autoestima se esconde atrás das roupas?

Um calendário de garotas reais

Um grupo de mulheres inglesas decidiu se despir em favor da luta contra a leucemia. Elas foram as primeiras “garotas do calendário” reais. E foi tamanha a fama que alcançaram, que sua história inspirou um filme e muitas outras mulheres e homens que repetiram a ideia de se despir por causas beneficentes: desde um time de rúgbi feminino (também inglês) até um grupo de policiais espanhóis.

O calendário de 2014 teve a participação especial de um grupo de mulheres argentinas, que posaram nuas por uma visão solidária. Elas são de Villa La Angostura, um paradisíaco vilarejo de 11 mil habitantes, na Cordilheira dos Andes, um cenário cheio de montanhas cobertas por neve, lagos e pinheiros. Como o hospital local não tinha mamógrafo, Paola Perini, fotógrafa e professora na Villa, teve a ideia com o intuito de arrecadar dinheiro e comprar o aparelho. Um total de 40 mulheres respondeu ao pedido e 12 delas foram fotografadas para o calendário. As fotos ficaram lindas. A grande mídia argentina divulgou o projeto. A repercussão foi tanta que o Ministério da Saúde liberou recursos para o mamógrafo.

A história poderia terminar ali. Mas não. O primeiro calendário Mujer en Amor se transformou em um projeto de conscientização sobre como nós, mulheres, nos vemos e como nos aceitamos (ou não). “Todas temos complexo com nossa estética e nossa beleza. Há um modelo com o qual todas queremos parecer. Vemos mulheres nas grandes cidades que são todas iguais: as mesmas pálpebras, a mesma boca, o mesmo corpo. Não se gostam como são e não se gostaram nunca. É uma sociedade estúpida, onde todas querem ser a mesma mulher. O problema é como transmitimos isso a nossas filhas”, destaca a fotógrafa quando questionada sobre a motivação em fazer o Mujer en Amor.

Segundo Paola Perini, se uma mulher se ama e se respeita como ela é, não importa o que os outros digam. Não importa que desdenhosamente lhe digam “gorda”, “negra” ou “baixinha”. E a chave está na autoestima e na segurança que temos, primeiro como mulheres para, em breve, como mães, educarmos as nossas filhas.

Há um ano, uma empresa de cosméticos que tem como slogan a “beleza real” convocou um retratista do FBI para fazer o semblante de um grupo de mulheres. Ele nunca as viu. Primeiro, fez o retrato seguindo a descrição que elas faziam de si mesmas e, depois, como as descreviam pessoas que não as conheciam. O resultado foi impactante: nos últimos desenhos, as mulheres se viam muito mais bonitas. Uma pesquisa mundial – que incluiu a América Latina – realizada pela mesma empresa há poucos anos mostrou-se ainda mais forte: apenas 4% das mulheres se classificavam como bonitas. E 60% tinham deixado de fazer coisas que gostavam – como ir para a praia ou praticar esportes – por causa do seu físico.

Como mãe de uma menina de 8 anos – e também de um garoto de 5 – "estereótipos" é um tema que me preocupa. Creio que agora, me aproximando dos 40, fiz as pazes com o espelho e, sim, posso dizer que me vejo bem, com minha barriguinha e minha celulite: não sou Scarlett Johansson nem Megan Fox, mas uma mulher comum que teve dois filhos, trabalha, prepara a comida, faz as compras e se obriga a ir ao pilates duas vezes por semana.

Sempre desejei fortalecer a autoestima dos meus filhos e o respeito pelos outros. Transmitir a eles, de maneira simples, que eu gosto de mim como eu sou e não encobrir os “defeitos” do meu corpo. Mas me parece que o tema é mais complexo porque vivemos em uma sociedade onde os corpos de nossos filhos vêm dos meios de comunicação de massa como modelos, que são, em sua maioria, impossíveis de tão perfeitos. Temos, como mães, que conversar muito sobre o que eles enxergam e também os escutarmos muito: como eles interpretam essas imagens, quem são seus colegas, o que pensam? Será suficiente? Espero poder dar razão à Paola Perini em alguns anos. E que meus filhos sejam uma mulher que se ame e um homem que também o faça.

Foto: Mujer en Amor

Por Adriana Santagati