Comportamento

Uma mãe e uma escola contra o bullying

Por Paula Rizzo

Como eu comecei a conversa sobre o tema na minha comunidade escolar

Uma mãe e uma escola contra o bullying

Como mãe, fico sempre apreensiva com tudo aquilo que possa fazer mal às minhas filhas e com aquilo que elas ainda não estão preparadas para lidar. E o bullying, é claro, é um assunto importante.

Escolhemos uma escola que vislumbramos como tendo uma comunidade mais protegida, onde a infância das crianças parecia ser mais preservada. Achávamos e sentíamos que as crianças nessa escola eram mais crianças. E na primeira infância, acho que tudo o que se quer é que elas possam brincar como uma criança deve brincar.

Acontece que as crianças estão crescendo. A minha mais velha, neste ano, completa 7 anos, e as manifestações de bullying na sua série, que já apareceram de forma mais branda, devem começar a surgir com mais recorrência e força.

E quis alertar as mães da minha comunidade que há o papel da escola, de olhar por nossos filhos quando não estamos presentes e proteger, mas há também o papel da família de conversar, de pontuar.

Fiz uma pequena carta para as mães das colegas da minha filha mais velha dizendo que ninguém está livre de ser alvo: seja por ser alto demais, baixo demais, magro demais, gordo demais, ter um pescoço comprido, ter uma pinta no rosto, ser mais dentuço… 

O que quis colocar a essas mães é que ninguém pode ter a garantia de que o filho não vai ser alvo. Ou o atirador. Mas eu coloquei que, como eu não posso garantir que a minha filha não seja o alvo porque não depende dela, tenho me esforçado em fazer com que ela não seja o atirador.

Gerei a conversa no intuito de que eu e essas mães trabalhássemos em conjunto. Para que pelo menos dentro da nossa preservada comunidade escolar não tenhamos atiradores. Para que possamos preservar de fato a infância de nossos filhos.

E, para fazer isso, considerei que deveríamos olhar junto para as coisas, para ver se nós mesmos não estamos falando, julgando ou agindo com preconceito ou a favor da exclusão.

Para refletir sobre o que colocamos para os nossos filhos como valores (o que é ser bom, o que é ser honesto, o que é ser amigo, o que é ser bonito) e sobre o que praticamos mesmo que sem perceber (os comentários que possamos fazer sobre uma mãe, um pai, uma criança na frente dos nossos filhos - "aquele baixinho", "aquele gigante", "aquele gordinho", "aquele dentuço").

Muitas vezes ouvimos de crianças frases que elas não poderiam ter formulado sozinhas, sem terem ouvido de um adulto. Me incluo no meio disso. E eu não estou falando isso de fora. Me considero parte do problema. Tento aprender todos os dias a ser uma mãe melhor.

Minha filha não foi objeto de bullying na escola, que eu saiba. Mas pode ter sido. Ou vir a ser. No entanto, penso que as crianças não têm capacidade emocional de lidar com o bullying.

A minha proposta para as mães foi a de cuidar, juntas, para que não tenhamos atiradores. Ou para quando um aponte a arma, um outro amiguinho abaixe. Para que tenhamos uma comunidade legal. Para que as crianças possam ser altas, baixas, magras, gordas, dentuças, com pintas, usar óculos, usar aparelho e, pelo menos nessa nossa microcomunidade, possam se sentir felizes e amadas. Pelo que são e não pelo que aparentam. Com suas diferenças que podem também não ser só físicas.

Porque não tem coisa mais importante na vida de um pai e de uma mãe que preservar a infância de seus filhos e, na vida de uma criança, aprender que somos todos diferentes. E isso pode ser muito legal.

A minha carta foi bem acolhida. A escola também resolver trazer o assunto como pauta de uma palestra e bate-papo com especialista. É o começo de um esforço conjunto e um cuidado coletivo.

Fica o convite a vocês para que tentem fazer o mesmo em suas comunidades escolares.

(Foto: Arquivo pessoal)