Educação e Desenvolvimento

Cotas como ferramenta de transição para alcançar uma igualdade

Por Samantha Shiraishi
@maecomfilhos

Longe do ideal, as cotas são uma possibilidade de garantirmos que nossas filhas vão chegar a cargos de liderança em qualquer lugar, seja na política, pública ou privada

Cotas como ferramenta de transição para alcançar uma igualdade

Novembro ganhou um novo sentido para mim depois que o Dia da Consciência Negra foi instituído e, além de usufruir do feriado fora de hora (quem não se anima com uma folga um mês antes do Natal?), descobri que se tornou uma época para aprender sobre o significado da luta pela igualdade no nosso país.

Vivemos numa sociedade que finge não segregar, mas segrega. Somos separados, por mal ou por bem, e vamos levando as coisas. Mais do que discutir o racismo, machismo ou comportamento burguês (que separa as pessoas pela condição social), acho que devemos aproveitar as chances para pensar no que podemos fazer para mudar. 

Eu sou de minoria racial. Meus avós vieram do Japão e por isso sou “amarela” e correspondo a 2% da população. Mesmo meu lado europeu, por parte de mãe, de alemães-russos, não pode ser considerado maioria, afinal o Censo de 2012 mostrou que mais de 50% da população brasileira é negra ou parda. 

Mas o que me coloca como uma figura segregada não é minha diferença de cor de pele e sim minha diferença de postura social. Me sinto mais “estranha” no ninho por ser mulher, empresária, mãe e até por ser blogueira (a louca dependente de internet que conta a vida para estranhos) do que por ser amarela-morena. 

Por isso, me senti em casa quando vi que um dos temas do Fórum Mulheres em Destaque, que agitou São Paulo na útima semana, tratava desse assunto e defendia (vejam só!) a criação de cotas e iniciativas para aumentar o percentual de liderança feminina.

A justificativa: “Não podemos esperar 300 anos para chegar lá”. 

Como algumas participantes da mesa de debates do Fórum Mulheres em Destaque, eu já fui contra cotas. Achava-as mais preconceituosas, racistas e machistas do que a dificuldade enfrentada. Mas ao ouvir a empresária Luiza Helena Trajano, as advogadas Luciana Batista e Raquel Preto, a executiva Maria Fernanda Teixeira, falarem sobre o tema com Adriana Carvalho, Assessora para Empoderamento das Mulheres da ONU Mulheres, me rendi. Elas foram unânimes nos argumentos que algo pode e precisa ser feito para aumentar a participação das mulheres no poder público e privado.
 
Adriana Carvalho era como eu. Cresceu em um ambiente familiar que incentivava a mulher, mas depois de acompanhar alguns estudos e experimentos e avançar na carreira, percebeu que só com cotas será possível mudar a atual realidade. 

“Vemos que todos os países que tiveram uma iniciativa nesse sentido cresceram a participação feminina. Ainda questionamos muito se as mulheres estão preparadas, mas será que todos os homens que estão lá estão preparados? Sem as cotas, nossa jornada pode levar 300 anos. Tenho duas filhas e não quero esperar tanto”, afirmou. 
 
O fórum me fez perceber que realmente ações precisam ser feitas e as cotas são tipicamente uma ação que vem de fora e normalmente trazem resultados rápidos. Pareceu-me sempre que esses resultados seriam “números bonitos”, mas me convenci de que criam “um ciclo vicioso que garante que mulheres tenham um crescimento”. 

Ao ver mulheres em cargos de liderança na sociedade, nós planejamos o futuro de um jeito diferente e as meninas terão outros sonhos.

As cotas são um mundo ideal?

Não, mas são uma possibilidade de garantirmos que nossas filhas vão chegar a cargos de liderança em qualquer lugar, seja na esfera política, pública ou privada. O processo educativo é a melhor forma, mas pesquisas mostram que vamos levar pelo menos 20 anos para alcançar 20% de mulheres na liderança e dados mostram que estamos com o mesmo percentual já há sete anos.
 
E você, concorda? Será que as cotas podem ser apenas um processo transitório para alcançar uma igualdade? 

(Fotos: FreeImages)