Educação e Desenvolvimento

As dificuldades e recompensas de mudar para uma nova escola e falar outra língua

Por Priscilla Perlatti

A adaptação leva tempo e precisa de dedicação

As dificuldades e recompensas de mudar para uma nova escola e falar outra língua

Quando soubemos que íamos nos mudar para Singapura, a nossa maior preocupação, sem dúvida, foi com a adaptação social e cultural das crianças. Nunca é fácil escolher escola para os filhos e no nosso caso a definição foi meio no escuro porque não tivemos muito tempo para pesquisar e ponderar os prós e contras de cada um dos muitos colégios que visitamos antes de tomar a decisão final.

Em Singapura o mais comum é que as crianças de famílias expatriadas (como a nossa) estudem em escolas particulares. Buscamos uma instituição genuinamente internacional, onde não houvesse uma predominância de religião ou nacionalidade, mas não encontramos vagas disponíveis para Stella e Lia dentro das escolas com esse perfil.

A decisão acabou sendo por uma escola americana, onde o inglês é a principal língua de instrução e há um programa estruturado para acolher as necessidades e dar o apoio aos estudantes estrangeiros que ainda não dominam o idioma com fluência.

Mesmo frequentando há alguns anos uma escola com um programa bilíngue no Brasil, as meninas tiveram alguma dificuldade com a comunicação. Porém, cada uma está contornando a situação de maneira diferente.

Stella, que está com 9 anos, já tinha mais desenvoltura com o inglês, porém, por estar no quarto ano, a exigência acadêmica é maior também. O meio que ela encontrou para ter uma maior intimidade com a língua foi através da leitura. Ela rapidamente se tornou uma ávida leitora e meu maior orgulho é contar que ela está lendo uma média de 3-4 livros por semana, o que está ajudando muito a construir a segurança que precisa para se comunicar na sala e também com os novos amigos. Ela foi escolhida entre diversos outros alunos para receber um certificado de mérito pelo fato de assumir riscos e estar tão aberta a novos aprendizados. Mesmo tendo um perfil bem independente, ainda tem seus momentos de tristeza e lágrimas durante a aula. A sorte é que criou uma forte empatia com sua professora, que a tem acolhido durante essas crises, tão normais durante o período de adaptação.

Lia, 6 anos, está em uma fase mais complicada. Quando deixamos o Brasil ela estava no processo de alfabetização, conhecendo letras e fonemas da língua portuguesa. Foi (tem sido) muito difícil fazer essa transição. Tinha choradeira todos os dias antes de entrar na sala e demorou um bom tempo para criar laços com sua professora e colegas, porque até então estava se comunicando muito pouco por conta da timidez e da falta de vocabulário. Para piorar as coisas, duas semanas depois das aulas começarem, ela caiu no parquinho da escola e teve que engessar o braço. O progresso que tínhamos feito em relação à adaptação voltou à estaca zero. Mas nada como um dia depois do outro, com altas doses de paciência e perseverança para retomar o caminho. Ela exige mais do meu tempo e dedicação (por ser menor e por ter um perfil que sempre demandou mais de atenção). No entanto, dez semanas depois do início das aulas, já vemos grandes diferenças. Atualmente ela está em um estágio bem chatinho, em que já acha que sabe tanto que anda corrigindo meu sotaque. Menos mal.

Até agora esses foram alguns dos aprendizados sobre essa fase de adaptação:

  • o mais óbvio e também o mais importante: cada um tem o seu tempo. É fundamental respeitar o ritmo e as necessidades de cada criança até se sentirem integrados e confortáveis na nova vida;
  • aulas de inglês (ou do idioma de instrução) antes e durante o período de adaptação são um importante instrumento para construir a segurança e independência de quem está chegando;
  • os professores são parte importante desse processo e faz toda a diferença poder contar com o apoio deles. Por isso, é fundamental procurar conhecer não só sua formação e experiência, mas também o ambiente cultural de onde eles vêm para uma melhor integração.

 

(Imagem: Arquivo pessoal)