Educação e Desenvolvimento

Doutora Brinquedos é o começo da "cura" definitiva para os sonhos de muitas meninas!

Por Samantha Shiraishi
@maecomfilhos

A menina negra, cujo acessório favorito é um estetoscópio rosa, se tornou um símbolo de orgulho e esperança para as mulheres negras na medicina e as filhas que elas querem inspirar

Doutora Brinquedos é o começo da "cura" definitiva para os sonhos de muitas meninas!

Estava fazendo compras e uma menina linda com sua boneca me chamou atenção. Claro que, agora que sou mãe de menina, tudo relacionado ao universo "delas" me encanta e quero ficar por dentro de tudo que perdi nos outros 13 anos em que era só "mãe de meninos".

Mas esta boneca e sua menina tinham algo mais: eram lindamente negras. Eu tenho uma paixonite por crianças marrons com cabelos bem cacheadinhos - o Menino Marrom, livro parodio aqui, é um dos indicados no meu post Livros infantis para estimular a boa consciência negra. E a boneca com sua menina eram exatamente assim, com um "plus": estavam fantasiadas de médica.

Na volta das compras, fui procurar saber mais e descobri que era uma personagem, a Doutora Brinquedos (Doc McsStuffins). A série, do Disney Junior, está disponível também por streaming no Netflix e no site da Disney (seção de vídeos).

Em pouco tempo, a menina negra, cujo acessório favorito é um estetoscópio rosa, tornou-se nossa companhia diária e eu e Manu vemos os episódios rindo e cantando com ela. 

Mas a Doutora Brinquedos é muito mais: ela se tornou um símbolo de orgulho e esperança para as mulheres negras na medicina e as filhas que elas querem inspirar. 

Li em sites étnicos que com este personagem, assim como com a querida princesa empreendedora Tiana (de A Princesa e o Sapo), a Disney firmou uma personagem na qual meninas negras podem olhar e ver alguém que as represente, reforçando que "é muito bom ver esta criança negra em um papel de protagonista, e não apenas no elenco de apoio. E ela é uma profissional aspirante a intelectual, não um cantor ou dançarino ou atleta".

Pessoalmente vi neste personagem muito mais. Sinto que a “Doutora Brinquedos”, com suas histórias singelas de criança que ainda não sabe ler, mas já simula situações do cotidiano (e dá lições de saúde muito legais), enaltece a importância da família e de saber apreciar e respeitar as diversidades e diferenças.

Gosto imensamente também do fato da mãe da pequena Doutora ser uma médica que ajuda sua filha nos ‘diagnósticos’, enquanto que o pai é um cozinheiro que faz sanduíches saudáveis para a menina e seu irmãozinho de quatro anos, Donny. Os papéis dos pais, longe do óbvio da família de comercial de marganina (a do pai saindo para o trabalho e mãe ficando na cozinha), é uma linda versão de uma das famílias amorosas do século XXI, na qual todos são igualmente responsáveis e participativos, sem definição de sexo para "combinar" com as atividades de dentro e de fora de casa. 

E, apesar de não fazer parte desta minoria étnica, me identifiquei com o movimento criado pela médica americana Myiesha Taylor, que criou uma colagem com uma imagem da Doutora Brinquedos cercada por 131 fotos de mulheres negras, médicas americanas, especializadas em todas as áreas da medicina nos Estados Unidos e além. É dela - inspirada na filha de 4 anos que adora o desenho -  uma carta de agradecimento a Disney, expressando o entusiasmo do grupo: 

“... Agradecemos ao Disney Jr. e Brown Bag Films por este grande modelo novo para as nossas crianças.  Nós também queremos estender um agradecimento especial a criadora muito talentosa de "Doutora Brinquedos", Chris Nee. Chris seu trabalho tocou muitas mulheres que se levantam todos os dias para viver esse sonho de infância de se tornar uma médica. Agradecemos a você por capturar as esperanças e sonhos que todas nós tivemos quando meninas e compartilhá-los com o mundo...” 

As médicas acreditam que há uma falta de representação positiva dos afrodescendentes na televisão e entendem que a "Doutora Brinquedos" é um exemplo positivo para as crianças negras, que elas podem alcançar qualquer coisa que definam na sua mente.

De acordo a Associação Médica Americana, havia 18.533 negros médicos em 2010, ou menos de 2% de um total de 985.375 médicos norte-americanos, incluindo cerca de 300 mil médicos do sexo feminino. Segundo o Censo 2010 dos EUA, os negros representam 12,3% da população, cerca de 40 milhões, com mais da metade dos quais são mulheres. 

E no Brasil? Quantos médicos e médicas negros existem? 

De acordo com o IBGE, os profissionais autodeclarados pretos e pardos (negros) correspondem a meros 9,7% dos médicos no Brasil. A exclusão só é maior entre dentistas, com presença reduzida a 8,6%. Em uma pesquisa do Datafolha, 48% do total de entrevistados afirmaram que não conhecem médico negro.

Que a  "Doutora Brinquedos" inspire nossas crianças negras brasileiras e mude esse quadro na medicina e nos projetos de vida de muitas meninas mundo afora!