Educação e Desenvolvimento

Obediência em casa é lei

Não adianta terceirizar e culpar a escola, a avó, a babá ou o psicólogo se seu filho não obedece. São os pais os responsáveis pela criação e educação. Está no código civil

Obediência em casa é lei

Ele já não respeita mais. É preciso um discurso para convencer seu filho a entrar no banho - e outro para sair dele. Na hora das refeições, é chamado umas oito vezes. Para juntar os brinquedos, é mais uma novela.

Para qualquer ordem dos pais, é preciso uma série de repetições, acompanhada de uma contagem regressiva ameaçadora. Seu filho só tem 5 anos. Imagine aos 12, aos 17…

Alguns pais apelam para aquela boa e velha tática de alguém conversar com a criança - os avós, os tios, a professora, alguma pessoa fora do eixo familiar -, na intenção de serem ouvidos de alguma forma, nem que seja por meio da fala de outras pessoas.

O que muita gente não sabe é que existe uma lei em nosso código civil (10406/02), cujo artigo 1.634 fala justamente do exercício do poder familiar sobre os menores. No inciso VII, o código diz que é obrigação dos pais que os filhos “lhes prestem obediência, respeito”. Ou seja, não adianta terceirizar e culpar a escola, a avó, a babá, o psicólogo pela falta de obediência. Cabe aos pais dirigirem aos menores a criação e a educação, como consta no primeiro inciso da lei.

Entretanto, nossa sociedade cobra que sejamos as melhores em tudo o tempo todo: profissionais bem-sucedidas, bem informadas, mães exemplares, com um corpo bem definido. Assim, os valores dentro de casa vêm sofrendo mudanças que acabam interferindo bastante na relação entre pais e filhos.

Na ânsia em serem sempre os melhores, o que se observa é uma confusão de papéis. “Os pais perderam a ideia de que são pais, e passaram a ocupar o lugar de amigo dos filhos. Logo, os filhos também passaram ao lugar de amigos, e para amigo não se dá ordem”, argumenta Maria Irene Maluf, especialista em psicopedagogia, neuroaprendizagem e educação especial.

Então o diálogo se perde. É preciso escrever um bilhete para a escola e pedir a ajuda dos profissionais. Sandra Paula Tomazi Weber, especialista em Direito Digital e diretora do Instituto iStart, que promove a educação em Ética e Segurança Digital para as famílias brasileiras, aponta que a escola pode apoiar no processo de educação quando os pais têm que ensinar algo que não aprenderam, e que os pais podem solicitar o apoio de profissionais para proporcionar uma educação de qualidade.

“Contudo, a responsabilidade legal continua sendo dos pais e, diante de um incidente, eles não poderão se esquivar, pois possuem o dever de vigilância”, diz.

A culpa é de quem?

Mas a realidade nem sempre é assim. O que se vê são alguns pais tentando punir escolas, babás e outros profissionais relacionados aos cuidados e à educação infantil, por causa do mau comportamento do filho, cobrando algo que diz só respeito a eles.

Um exemplo banal é o uso do celular: exigem que a escola proíba ou limite o uso do aparelho em sala de aula, mas em casa o exemplo é o contrário, já que smartphones são utilizados durante as refeições, num passeio da família, numa reunião com amigos.

A falta de respeito aos responsáveis pode passar a se refletir na vida fora de casa, como nos casos de bullying. Os pais respondem por essa negligência e são responsáveis pela reparação civil, caso seus filhos menores causem algum dano (Art. 932 do Código Civil). “Já temos decisões judiciais, inclusive veiculadas na mídia, em que o pai foi responsabilizado civilmente pelo comportamento do filho”, lembra Sandra Weber. 

Obediência

Tudo começa em casa

Impor limites e exigir respeito e obediência são situações que se aprendem no dia a dia de um lar, onde temos algumas regras a serem cumpridas para que a casa funcione adequadamente.

Se em sociedade temos leis e pessoas que fiscalizam o seu cumprimento, em casa o processo é o mesmo: as leis são implícitas e os pais devem exigir o cumprimento delas sob algum tipo de pena.

A mãe cozinha, o pai junta o lixo, o filho mais velho lava a louça e o menor precisa ser responsável pelos seus próprios brinquedos. Agindo assim, a criança passa a perceber que existem obrigações dela e obrigações de todos da casa.

“O filho não é hóspede, ele é parte da família. E, de acordo com a idade e o perfil, a criança deve ter uma tarefa para auxiliar em casa, para que aprenda coisas para a vida futura dela e até por uma questão de sobrevivência”, explica a especialista em psicopedagogia.

Sem ter conhecimento da lei que diz que os menores devem realizar pequenos serviços condizentes com sua idade e condição, Rogéria Ferreira Thompson, 43 anos, estudante de Psicologia, e mãe de Daniel, 12 anos, e Suzana, 14 anos, conta que faz sua palavra valer ameaçando retirar algo de que gostem, como TV ou videogame.

Ela afirma que algumas vezes precisa falar mais alto ou repetir o que quer. “Eles ajudam, sim, mas não espontaneamente. Precisam ser lembrados”, reconhece.

Ajudar nas tarefas domésticas é algo que pode auxiliar bastante a família na resolução dos papéis entre pais e filhos e na questão da obediência. Não é exagero nenhum pedir que os filhos façam pequenas atividades do dia a dia, que vão tendo novos níveis de dificuldade conforme a criança cresça: de início, podem por os guardanapos na mesa; depois, a toalha e passar a retirar os pratos, a recolher a roupa do varal...

Ao cuidar de seus pertences e auxiliar na rotina da casa, a criança aprende seu lugar na família e valoriza o lugar de cada membro dela. “É questão de ensinar a cuidar do que é seu e garantir um aprendizado que será para a vida toda”, aponta Irene Maluf.

Quando pensarem em ter um filho, as pessoas precisam refletir sobre o que elas vão abrir mão para educar aquela criança e quais serão os direitos e os deveres dela dentro daquela família. “É dessa maneira que nossos filhos aprendem a enfrentar a vida com coragem”, finaliza a psicopedagoga.

(Fotos: Getty Images)