Saúde e Bem-estar

Sim, você pode salvar vidas

Sangue, coração e tantos outros órgãos e tecidos podem ser doados para reacender a chama da esperança para muitas pessoas

Sim, você pode salvar vidas

Para salvar uma vida ou aliviar o sofrimento de alguém, não é preciso ser médico ou bombeiro, nem praticar um ato heroico. Todas nós podemos contribuir de alguma forma para oferecer uma nova possibilidade na vida daqueles que aguardam nas filas por um transplante.

O que é preciso? Apenas ser solidária e contribuir com a doação de órgãos. Os brasileiros já vestiram a camisa e conseguem compreender a importância deste gesto, mas ainda assim há muito a ser feito.

Para melhorarmos as estatísticas, é importante que aquele que deseja ser doador converse claramente sobre o assunto com os parentes próximos. É que o momento em que o médico aborda a família para falar sobre a possibilidade de doação de órgãos e tecidos, o clima é de sofrimento e luto, e eles nem sempre estão preparados para tomar a decisão.

“Se já houve uma conversa prévia e o paciente expressou o desejo de ser doador, é mais fácil para os familiares se posicionarem e aceitarem a doação”, explica o médico Diogo Medeiro, coordenador do Serviço de Transplante Renal do Hospital de Transplantes Euryclides de Jesus Zerbini, em São Paulo.

Infelizmente, mesmo quando a família autoriza, muitas vezes questões clínicas do doador impedem a utilização de alguns órgãos ou tecidos. É uma corrida contra o tempo para milhares de pessoas que aguardam por um transplante.

“Para se ter uma ideia da urgência, hoje há cerca de 120 mil pacientes com doença renal crônica e em tratamento dialítico no Brasil aguardando por um transplante de rim - órgão com maior fila de espera”, conta o médico.

Mas há boas notícias! Graças o apoio da população e das campanhas dos bancos de córneas, Associaçao Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) e Ministério da Saúde, o Brasil conseguiu praticamente zerar a fila de espera por córneas, de acordo com o médico.

Anualmente são realizados aproximadamente 14 mil transplantes no país. "Temos conseguido um grande número de doadores porque este tecido pode ser doado em qualquer caso de óbito, e não necessariamente se houver morte encefálica. Além disso, a ideia de poder trazer novamente a luz a um ser humano é muito bem aceita pelas pessoas”, explica Diogo.

O que é possível doar

Se você se interessou em ajudar, saiba que, em caso de doador vivo, podem ser doados cabelos, órgãos duplos (rins e pulmões) e parte do fígado. Já no caso de doador falecido, é possível a doação de órgãos como coração, pulmões, pâncreas, fígado, rins, intestino, e também tecidos, como córneas, pele, tendões, vasos, válvulas cardíacas.

“Mas a legislação brasileira autoriza apenas a doação dos órgãos se houver morte encefálica, ou seja, se ocorreu um dano neurológico grave, como acidente vascular cerebral (derrame), traumatismo craniano, meningites, que leva o encéfalo a não ter mais atividade por falta de fluxo de sangue”, esclarece o coordenador.

Veja os órgãos e tecidos que podem ser doados e a corrida contra o tempo para que possam ser transplantados com sucesso:

  • Córneas: são retiradas do doador até 6 horas depois da parada cardíaca e mantidas fora do corpo por até 7 dias.
  • Pele, válvulas cardíacas, ossos e tendões: retirados do doador até 6 horas depois da parada cardíaca e mantidas fora do corpo por tempo indeterminado.
  • Coração e pulmões: são retirados antes da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por até 6 hora. O ideal, entretanto, é que o transplante ocorra simultaneamente.
  • Rins: podem ser transplantados tanto de doador vivo, como falecido. Nessa situação, ocorrendo a morte encefálica, a família deve pronunciar-se o mais rápido possível, pois os rins devem ser retirados até 30 minutos após a parada cardíaca e mantidos fora do corpo (em condições adequadas) por até 48 horas.
  • Fígado e pâncreas: os órgãos são retirados depois da constatação da morte encefálica, mas antes da parada cardíaca, e mantidos fora do corpo por um máximo de 24 horas – desde que em condições adequadas de armazenamento.
  • Medula óssea: pode ser doada em vida. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), qualquer pessoa entre 18 e 54 anos e com boa saúde pode ser doador de medula, que é retirada do interior de ossos da bacia, por meio de punções, com anestesia - e se recompõe em apenas 15 dias. É coletada uma amostra sanguínea para saber se há compatibilidade entre o doador e paciente. Infelizmente, a chance de encontrar uma medula compatível é, em média, de 1 em 100 mil.
  • Sangue: é doado em vida e o procedimento é muito simples. De acordo com a Fundação Pró-Sangue, é preciso estar em boas condições de saúde, ter entre 16 e 69 anos (desde que a primeira doação tenha sido feita até 60 anos), pesar no mínimo 50 kg, estar descansada, ou seja, ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas e estar bem alimentada.
  • Cabelo: não salva vidas, mas ajuda (e muito!) na autoestima de quem enfrenta doenças sérias. Pode ser doado em qualquer fase da vida para organizações e projetos que confeccionam perucas a pessoas que perderam os fios em decorrência da quimioterapia, no tratamento do câncer. A doação é simples e o único requisito é que a mecha doada tenha, pelo menos, 15 centímetros de comprimento. Nossa blogueira Priscilla Perlatti fez a doação e conta como foi aqui.

 

Quem pode ser doador

Conversar previamente com a família é, realmente, o melhor caminho se você quiser ajudar outras pessoas no futuro. Diogo Medeiro explica que, de acordo com a legislação vigente, não há possibilidade de a pessoa deixar em testamento a vontade de doar órgãos e tecidos, nem existe um cadastro de doadores de órgãos e também não são mais válidas as declarações nos documentos de identidade e carteiras de habilitação.

“Assim sendo, quem deve e pode autorizar a doação em caso de morte encefálica é a família que, para tomar essa decisão, precisa estar ciente de que você quer doar seus órgãos e tecidos”, afirma o médico.

E até mesmo as crianças podem ser doadoras. “Elas podem doar pulmão, coração, fígado, intestinos, rins e córneas. Nos Estados Unidos, já foi feita captação de órgãos em um bebê de 5 dias. No Brasil, é mais raro termos doadores com menos de 1 ano”, comenta.

Todos podem colaborar

A professora Paula Marcondes Britto, de 35 anos, costuma doar sangue a cada 6 meses. “Para mim faz parte da rotina anual, como ir à consulta com o dentista ou fazer um checkup. Faço há cerca de 10 anos, desde que um amigo sofreu acidente de moto e precisou de transfusão”, comenta.

Ela lembra que esqueceu o receio prévio depois de ter comprovado que o processo é seguro e rápido. Além disso, descobriu que poderia ajudar várias pessoas com seu ato.

“Me informei e soube que o sangue doado é processado, ou seja, as plaquetas podem ser doadas para pacientes com determinadas necessidades, o plasma para outros, e as hemácias para outros. Então, com uma única doação, eu poderia ajudar até três pessoas”, alegra-se.

Viu como é simples? A doação é um gesto de amor e solidariedade, que pode salvar muitas vidas!

(Foto: Getty Images)