Saúde e Bem-estar

Com que idade seu filho pode tomar um cálice de vinho com você?

Por Samantha Shiraishi
@maecomfilhos

Parece inocente e, afinal, é ponto pacífico que uma dose não faz mal, né? Mas o consumo de álcool na adolescência pode causar danos neurológicos permanentes na fase adulta

Com que idade seu filho pode tomar um cálice de vinho com você?

Dizem que é cultural e que, por isso, é complicado mudar, mas o fato é que basta o adolescente chegar numa certa idade para as pessoas começarem a achar que ele vai querer beber.  

Como meu filho mais velho está alto e forte, passando facilmente por um jovem adulto em alguns momentos, comecei a notar que não é incomum oferecerem bebidas para ele. 

Aos 15 anos, mas já muito consciente de tudo, ele é quem me alertou na primeira vez em que foi a um evento de gastronomia acompanhando o pai e um garçom lhe ofereceu um drinque. 

Parece inocente e, afinal, é ponto pacífico que uma dose não faz mal, né? Pois faz. 

O consumo de álcool na adolescência pode causar danos neurológicos permanentes na fase adulta. Pesquisas comprovam que o uso excessivo de álcool nessa fase pode causar déficit cognitivo na vida adulta, comprometendo regiões do cérebro responsáveis pela memória, como o hipocampo.

Faz mal para adultos também? Claro. Mas em quem ainda está “em fase de desenvolvimento”, causa mais danos. 

Especialistas em saúde consideram a adolescência um período crítico no desenvolvimento cognitivo, emocional e social.

Muita gente acha que “cresceu por fora, está pronto”, mas a adolescência é um estágio de grande importância para o progresso das funções neurológicas, em que ocorre o refinamento de circuitos e amadurecimento de atividades cerebrais importantes, tais como planejamento e memória. 

Por isso, apesar de ser um comportamento comumente observado entre adolescentes (e olha, supercomum quando eu era adolescente, lá nos anos 1990), o uso de álcool não é aconselhável nessa fase da vida. Por atuar no sistema nervoso central, o consumo abusivo pode levar a consequências graves e irreversíveis.

A ONG CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool) divulgou recentemente um estudo sobre as consequências neurológicas provocadas pelo consumo intermitente de álcool por adolescentes, isso é, sendo interrompido em alguns momentos e retomado em outros. Exatamente como fazem a maioria dos jovens, né?

Bom, agora já temos um novo argumento para eles e para quem acha que “uma cervejinha inocente não vai fazer mal pro garoto”: há prejuízo comprovado na função de memória na vida adulta em quem bebia na adolescência. 

Isso quer dizer que todo mundo que já bebeu vai caducar antes? Não!

Os estudos científicos são feitos com cobaias (não humanas) e são hipóteses. Mas eles nos alertam para um cuidado que devemos ter em casa. 

Não há pesquisas recentes sobre o consumo de álcool por menores em lares brasileiros, mas na Austrália já se sabe que os pais são os principais fornecedores de bebida alcoólica para os jovens com menos de 18 anos de idade. E 1 em cada 6 jovens de 12 a 13 anos já recebeu bebida dos pais. Na faixa etária entre os 15 e 16 anos, esse número aumenta para 1 em cada 3. 

O intuito dessas famílias australianas ao dar bebida alcoólica aos menores é permitir que o jovem inicie o consumo em ambiente controlado. Mas a pesquisa revelou que, ao fazerem isso, esses pais mais atrapalham do que ajudam. 

Então, podem dizer "não" aos apelos culturais e familiares, sem medo de serem os chatos da turma! 

*Para quem quer ir além, vale ler o estudo “Adolescent Intermittent Alcohol Exposure: Persistence of Structural and Functional Hippocampal Abnormalities into Adulthood”, de Mary-Louise Risher, Rebekah L. Fleming, W. Christopher Risher, K. M. Miller, Rebecca C. Klein, Tiffany Wills, Shawn K. Acheson, Scott D. Moore, Wilkie A. Wilson, Cagla Eroglu, and H. S. Swartzwelder.

(Foto: Freeimages)