Saúde e Bem-estar

Gravidez x peso: qual o balanço ideal?

Como encontrar o meio-termo entre o “pé na jaca” e a “neura” de quanto engordar na gestação

Gravidez x peso: qual o balanço ideal?

Por vaidade ou por saúde, não é raro ouvir mulheres reclamando de uma batalha constante contra a balança. No entanto, durante a gestação, o cuidado com o peso e com a alimentação balanceada deve ser ainda mais intensivo.

Isso porque os hábitos da gestante podem ser cruciais para a saúde do bebê durante boa parte de sua vida. Como tudo que envolve atitudes para uma rotina saudável, os especialistas são unânimes em afirmar que o bom senso é fundamental.

Algumas celebridades parecem ter definido um novo padrão para o corpo de uma gestante. Com uma infinidade de seguidores nas redes sociais, essas formadoras de opinião logo fizeram se alastrar a polêmica sobre a “barriga mínima”, exibindo um abdome quase tão enxuto quanto antes de anunciarem a gravidez.

Na vida real, o ginecologista e obstetra Domingos Mantelli ressalta que a barriguinha típica de grávida pode ter diversos tamanhos, desde que a futura mamãe não descuide dos indicadores que definem uma gestação saudável.

“Não existe um critério de ganho máximo ou mínimo de peso. Há atletas que ganham bem pouco, assim como há mulheres que pesavam 100 kg no início da gestação e perderam 20 kg no processo, vendo baixar a massa gorda seguindo uma dieta nutricional certa”, exemplifica.

Encontrar o meio-termo entre o “pé na jaca” e a “neura” quando o assunto é a balança durante a gestação não precisa (nem deve) ser um desafio. Como explica a endocrinologista Giovana Carpentieri, não existe uma cartilha única a ser seguida, derrubando-se, inclusive, o mito de que o ideal é ganhar 1 kg por mês de gestação.

Segundo Giovana, os profissionais devem estabelecer metas de acordo com a saúde da mulher logo no início da gravidez. “O ganho de peso ideal depende do índice de massa corporal (IMC) da gestante antes da gestação. O maior ganho ocorre no fim do período, por isso dizer que se deve ganhar 1 kg ao mês está errado”, explica.

Referências de peso ideal

A endocrinologista Giovana Carpentieri afirma que a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica aconselha uma média para cada grupo de gestantes. De acordo com os números da associação:

Mulheres com IMC normal (entre 18,5 e 24,9) devem ganhar:

  • até 1,6 kg no primeiro trimestre como um todo
  • 0,4 kg por semana no segundo e no terceiro trimestres

 

Entre gestantes com sobrepeso, o ideal é:

  • ganho de menos de 1 kg até o fim dos três primeiros meses
  • 0,3 kg por semana nos segundo e terceiro trimestres

 

Grávidas que que estão no grupo de obesidade devem se preocupar com:

  • manutenção do peso no primeiro trimestre
  • 0,3 kg por semana nos segundo e terceiro trimestres

 

É importante lembrar sempre que esses valores servem apenas para referência e é fundamental o acompanhamento médico em cada caso.

O obstetra Domingos Mantelli reforça que, independente da balança, o crescimento adequado do bebê é o mais importante. “Se cresce de forma saudável, se a placenta não apresenta alterações, o peso do feto e a quantidade de líquido amniótico estão bons, não há com o que se preocupar”, afirma.

Peso abaixo...

As mamães que veem o número na balança subir menos que o indicado para cada período da gestação podem perceber alguns déficits de vitaminas e minerais, com maior risco de anemia e outras doenças.

De acordo com Giovana, tais casos têm risco aumentado de abortamento e parto prematuro. “Além disso, o bebê pode não se desenvolver como o esperado e ter peso e estatura abaixo do normal”, afirma a endocrinologista.

A nutricionista Sheila Mustafá lembra que, embora o peso seja a forma mais fácil de verificar se o desenvolvimento da gravidez está saudável, não é o momento de descuidar de uma alimentação balanceada, sendo esse o fator mais relevante na saúde da mãe e do bebê.

“A qualidade da alimentação da mãe conta muito. No entanto, não é o ideal que se fique com um peso muito baixo”, afirma.

... E peso acima

“O excesso de ganho de peso materno é um fator de risco independente para o desenvolvimento de doenças durante a gestação. As gestantes obesas também estão expostas ao maior risco de complicações durante o trabalho de parto e necessidade de cesariana”, alerta Giovana.

Para o bebê também existem problemas. Conforme esclarece a médica, é possível que o feto passe dos 4 kg, o que configura uma condição de risco chamada macrossomia fetal. A profissional também destaca que, nesses casos, existe uma incidência maior de anomalias congênitas.

Além disso, segundo a nutricionista Sheila Mustafá, o sobrepeso da mãe pode aumentar os processos inflamatórios celulares do bebê, podendo levar à sensibilidade ao açúcar e se tornarem obesos na fase adulta.

“Também estão mais suscetíveis a desenvolver alergias alimentares e outras intercorrências imunológicas”, alerta.

Chegando ao equilíbrio

Segundo os especialistas, a dieta saudável de uma gestante deve ter apenas 300 calorias a mais do que a recomendada para um adulto. Essas calorias extras devem vir de alimentos nutritivos, ou seja, não adianta inserir doces e outros alimentos que, além das calorias, carregam alta taxa de açúcar e gorduras.

“Após a gravidez e durante a amamentação, não é adequado fazer uma dieta hipocalórica e, sim, continuar tendo uma dieta balanceada”, aconselha Giovana Carpentieri.

Ela explica que a amamentação aumenta o consumo energético e, por isso, muitas mulheres relatam perda de peso nessa fase. “É importante consumir uma dieta variada, incluindo pães e cereais, frutas, legumes, verduras, derivados do leite e carnes e certificar-se de que a sede está sendo saciada”, indica a especialista.

É bom saber

Também existem alguns alimentos que devem ser evitados durante a gestação, não necessariamente por serem pouco saudáveis, mas sim por carregarem substâncias que podem interferir no desenvolvimento do feto.

A endocrinologista Giovana Carpentieri elenca os principais que devem ser deixados de lado ou que pedem atenção nos meses de gravidez:

  • Peixe cru e moluscos (são possíveis fontes do parasita toxoplasma, que pode causar cegueira e dano cerebral fetal)
  • Peixes predatórios grandes, como peixe-espada, tubarão, cavala e atum branco, fresco ou enlatado (podem conter níveis arriscados de mercúrio)
  • Carne, frango e frutos do mar crus ou mal passados
  • Leite não pasteurizado e queijos pastosos - feta, brie, camembert, roquefort, queijo branco e queijo fresco
  • Salsichas e frios (o consumo está liberado se o alimento for cozido antes da ingestão)
  • Patês, pastinhas de carne e frutos do mar defumados (o consumo está liberado se o alimento for cozido antes da ingestão e nas versões enlatadas)
  • Ovos mexidos moles e alimentos como molhos feitos de ovos crus ou pouco cozidos
  • Chás de ervas e suplementos (segurança na gravidez não estudada)
  • Bebidas alcoólicas (podem causar dano fetal)
  • Café (evitar a ingestão de mais de 2 xícaras por dia)

 

(Foto: Getty Images)