Saúde e Bem-estar

Obesidade e a luta contra um inimigo silencioso

Mais do que uma questão estética, trata-se de uma doença crônica, que atinge 17% dos brasileiros

Obesidade e a luta contra um inimigo silencioso

Na última década, o aumento dos casos de obesidade no Brasil tem chamado a atenção dos médicos.

Os dados mais recentes disponíveis dão conta que 17% dos brasileiros são obesos, ou seja, possuem IMC (Índice de Massa Corporal) superior a 30, como mostrou a pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) realizada em 2012. Em 2006, esse percentual era de 11%.

Os números referentes à parcela da população que está acima do peso são ainda mais alarmantes. Mais de metade dos brasileiros (51%) estão com sobrepeso (IMC maior do que 25). O levantamento considera apenas as pessoas com mais de 18 anos. Na edição anterior, 43% da população era considerada obesa.

Um dos grandes problemas no combate à obesidade é a falsa ideia de que ela se trata mais de uma condição estética do que de saúde.

“A obesidade é uma doença crônica. Doenças crônicas são aquelas que têm desenvolvimento lento, longa duração e não apresentam cura, apenas controle”, explica a endocrinologista Flávia Ribeiro, de São José do Rio Preto (SP).

Além de fator de risco para doenças cardiovasculares e osteoarticulares, diabetes e hipertensão, Flávia lista uma série de doenças que são consequência da obesidade:

  • Amenorreia (ausência de menstruação)
  • Mau funcionamento dos rins
  • Asma e apneia do sono
  • Disfunção do fígado pelo acúmulo de gordura
  • Inflamação e formação de pedras na vesícula
  • Acne
  • Enxaqueca
  • Depressão
  • Aumento dos níveis de colesterol ruim no sangue e redução do bom colesterol
  • Aumento dos triglicérides
  • Ansiedade

 

A gerente de projetos Teodora dos Santos tem hoje 36 anos e, desde os 15 anos, viveu no efeito sanfona do engorda-emagrece. Chegou a ser obesa e, na pior época, pesava quase 90 kg e apresentava IMC de 37,79 (obesidade grau II).

Sentiu na pele os efeitos da doença: além de pressão e colesterol altos, enfrentou problemas no joelho e na coluna.

Cansada de começar e parar no meio tantas dietas ao longo dos anos, decidiu procurar um médico depois de ter passado mal no fretado que pegava todos os dias de Santos até São Paulo para trabalhar. “Além de ficar assustada, deixei algumas pessoas bem preocupadas. Achei que era hora de mudar”, lembra.

A solução para Teodora foi mais drástica: no início de 2014, fez uma cirurgia bariátrica (de redução de estômago). “Após 7 dias da cirurgia eu já comecei a fazer exercício e acompanhamento com a nutricionista”, explica.

Em cerca de um ano, eliminou 32,2 kg e mantém uma rotina de exercícios e alimentação equilibrada. Teodora pesa hoje 55 kg e apresenta um IMC considerado saudável (23).

A nutricionista Catia Medeiros explica que, apesar de ser uma das referências mais famosas para medir sobrepeso e obesidade, o IMC (resultado da divisão entre peso e altura da pessoa ao quadrado) não pode ser a única medida para o diagnóstico dessas doenças.

“O ideal é analisar medidas de circunferências, medidas de gordura através da prega cutânea, com o auxílio do adipômetro e, até mesmo, um exame de bioimpedância. Esse exame vai apontar o real percentual de gordura, músculo, hidratação e gasto calórico. Dessa forma, é possível trabalhar com o percentual de gordura, pois ele sim apontará a real obesidade”, afirma.

O tempo também é um inimigo

A obesidade é uma doença que piora com o tempo. À medida que ela vai evoluindo, as células de gordura vão se multiplicando e tornando o quadro ainda mais grave.

“Cada nova célula passa a ter a capacidade de aumentar em tamanho e ter sua memória celular gravada. Por isso, após a perda de peso, é necessário se manter por cinco anos no novo peso para que a doença não volte com facilidade”, explica Catia.

A profissional de Relações Públicas Tatiana Machulis tem 27 anos e, depois de chegar a pesar 79 kg e apresentar IMC de obesidade severa (35), perdeu 20 kg nos últimos dois anos adotando uma dieta rigorosa, que mantém até hoje.

“Cortei tudo o que era gordo de uma vez: parei de comer pão, doce, fritura e refrigerante do dia para a noite e, aos poucos, fui voltando com alguns alimentos (em porções e frequência bem menores). Como sempre fiz exercícios, minha estratégia foi intensificar tudo: mais tempo e velocidade na bike e na esteira, por exemplo”, conta.

Ela não chegou a apresentar problemas de saúde em decorrência da doença, mas reconhece que o excesso do peso lhe trazia ansiedade, tristeza e insegurança com a aparência. Além disso, sabia que aquele estilo de vida, hora ou outra, teria consequências.

Decidiu virar a chave depois de passar uma tarde inteira no shopping sem conseguir encontrar um vestido de festa que lhe caísse bem. Cansada de só reclamar do excesso de peso e não fazer nada, acabou ouvindo o conselho da mãe: “Se você está insatisfeita com uma situação, mude”.

Mas reconhece que foi o momento mais difícil que já enfrentou. “É uma batalha de 24 horas por dia. É você contra você mesma. Comida é um vício”, avalia.

Três pontos, porém, motivaram Tatiana a seguir em frente: “Os resultados que, mesmo lentos, estavam aparecendo; as pessoas ao meu redor - meus amigos e família sempre tinham uma palavra de incentivo - e o desafio, pois quando comecei a perder os primeiros quilos e ver que era possível, entrei quase erm uma guerra. Todo dia queria conhecer meu novo limite de velocidade na bike e ver quanto tempo eu conseguia ficar sem comer doce”, lembra.

(Foto: Getty Images)